Dia do Senhor 43

Sermão preparado pelo pastor Abram de Graaf

Leitura Pv. 6, 16 & Mt. 22, 16

Texto Dia do Senhor 43

Queridos irmãos em Cristo Jesus,

Jovens e crianças,

Assistindo os debates dos políticos, uma pessoa fica triste ouvindo todas as acusações que foram lançadas pelos candidatos. Sempre o primeiro candidato se apresentava numa bela maneira, mas depois chegou o outro, que tirou a bela fachada e apontou as manchas sujas na vida política do primeiro candidato; apontou para a corrupção que estava em baixo do tapete. A maioria dos políticos se parecia com os fariseus. Jesus disse a respeito deles (Mt. 24, 27-28): “Ai de vós, hipócritas, porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que, por fora, se mostram belos, mas interiormente estão cheios de ossos mortos e de toda imundícia. Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas, por dentro, estais cheios de hipocrisia e de iniquidade”.

Com certeza eles mesmos acham que são justos e verdadeiros. Faz um ano que um dos políticos até disse no final do último debate: “Não falei nenhuma mentira, sempre falei a verdade nos debates”. Quando ouvi isso, pensei: então esta foi a sua primeira mentira, porque ouvi aquele candidato, várias vezes distorcer a verdade, criando uma caricatura do seu adversário. De fato, todos pecaram contra isso.

Parece que o homem é assim. A grande maioria dos pecados é cometida pela língua. Tiago diz (3,8): “Nenhum dos homens é capaz de domar a língua; é mal incontido, carregado de veneno mortífero. Com ela, bendizemos ao Senhor e Pai; também com ela, amaldiçoamos os homens, feitos a semelhança de Deus. De uma só boca procede benção e maldição. Meus irmãos, não é conveniente que estas coisas sejam assim”.

A mentira, a fofoca, a manipulação das palavras, a caricatura e o falso testemunho são todas obras do diabo. Jesus o chamou “mentiroso e pai da mentira”. Assim ele agiu desde o início da nossa história e destruiu a boa relação entre os homens e Deus e o bom convívio entre os homens e as mulheres. A mentira é o pior pecado que existe, porque destrói toda confiança. Uma criança que não fala a verdade destrói toda a confiança dos pais e cria uma atmosfera de desconfiança e acaba com a paz em casa.

Deus fica aborrecido com isso. Deus odeia isso. Salomão disse (Prov. 6, 16): Há seis coisas que o Senhor odeia, e uma última que ele simplesmente detesta: a) olhos arrogantes; b) a língua mentirosa; c) as mãos que derramam sangue inocente; d) o coração que só pensa em fazer o mal; e) os pés que se apressam para fazer o mal; f) a testemunha falsa que profere mentiras para prejudicar alguém; e g) aquele que espalha discórdia entre irmãos;

Deus é um Deus de ordem e paz e ele odeia todos que destroem a boa ordem e paz. A mentira faz isso. O diabo ensina isso. Ele quer destruir a paz e a boa ordem na criação de Deus, na família de Deus, na casa de Deus. Onde há discórdia, desconfiança, e uma língua mentirosa, ali o diabo está presente. Cantamos o hino 180, que diz:

Com suspeitas não se alcança

Vero amor, vero amor!

Onde houver desconfiança,

Ai do amor, ai do amor!

Pois mostremos lealdade,

Combatendo a falsidade,

Combatendo a falsidade,

Que destrói este amor!

Então, Deus odeia a língua mentirosa, a testemunha falsa, que profere mentiras para prejudicar alguém, e aquele que espalha discórdia entre irmãos. A vida fora do paraíso é assim. O mundo inteiro é infectado pela doença que se chama “a mentira”. Deus odeia essa praga, e para combatê-la, Deus nos deu o nono mandamento: “Não dirás falso testemunho contra o teu próximo”.

Isso se refere, em primeiro lugar, ao testemunho que alguém faz na corte em frente de um Juiz, mas não somente isso. O nosso catecismo tem razão quando diz: Jamais posso dar falso testemunho contra meu próximo, nem torcer suas palavras, ou ser mexeriqueiro, que revela segredos para comprometer alguém, ou caluniador, que faz acusações levianas ou falsas contra uma pessoa, com a intenção de lhe macular a boa reputação. O catecismo estende o nono mandamento a todo nosso falar: devemos evitar toda mentira e engano! Devemos examinar todo nosso falar e amar a verdade, falar a verdade e confessá-la francamente.

Isso não é fácil, irmãos. Até podemos nos perguntar se é possível. Tiago disse: “Se alguém não tropeça no falar, é perfeito varão, capaz de refrear também todo corpo”. Uma pessoa perfeita sabe se controlar, mas ninguém é perfeito. A Palavra de Deus é bem clara a respeito disso (Rom. 3, 12-13): “Não há ninguém que faça o bem, nenhum sequer. O que falam é abominável e tão sujo quanto o mau cheiro de uma sepultura aberta. Suas línguas estão cheias de mentiras. Tudo o que dizem tem o ferrão e o veneno de serpentes mortíferas. Suas bocas estão cheias de maldição e de amargura”. Todos os homens e todas as mulheres são assim. O homem que conhece a lei de Deus lutará contra isso. Os justos detestam a mentira (Prov. 13,5). Eles tentam evitar toda mentira e engano. Mas só o homem perfeito consegue fazer isso.

Jesus Cristo é este homem e ele serve como bom exemplo para nós. Ele mesmo disse: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém pode chegar ao Pai, a não ser por mim”. Jesus é a Verdade! Jesus não somente disse: eu sou o verdadeiro caminho que leva para a vida. Não, ele disse mais. Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Jesus é a Verdade. O que ele diz é verdade; o que ele diz a respeito de Deus é verdade; o que ele faz confirma a Verdade. Ele é o único caminho para o Pai.

Jesus é a Verdade e de acordo com isso ele falou a verdade. Até os adversários dele reconheceram isso. Num certo momento eles se aproximaram e disseram (Mt. 22, 16): “Mestre, nós sabemos que o Senhor é sincero e integro e ensina o caminho de Deus conforme a verdade sem se preocupar com as influências e opinião dos outros e nem julga pela aparência”. Prestem atenção ao que estão dizendo!

O Senhor é sincero e íntegro. Isso quer dizer que as palavras do Senhor são verdadeiras e vêm do seu coração. O interior e o exterior combinam e concordam. Ele não tinha uma segunda agenda. Ele não disse alguma coisa e pensava outra coisa. Ele é honesto: sincero e íntegro.

Ele ensina o caminho de Deus conforme a verdade. O Caminho de Deus é a Lei de Deus. Podemos pensar no Grande Mandamento (Amar a Deus e amar ao teu próximo), mas também nos dez mandamentos. Cristo os ensinou claramente e vivia de acordo com estas leis. Ele mesmo disse (Mt. 5, 17): Não penseis que vim revogar a lei ou as Profetas; não vim para revogar, vim para cumprir. Ele seguiu os mandamentos rigorosamente de acordo com seu sermão sobre os mandamentos (Mt 5). Os antigos disseram isso, mas EU vos digo! Jesus não era um hipócrita, que parece justo no exterior, mas é injusto e corrupto no interior. Jesus não era assim. Ele ensinou a lei do Senhor rigorosamente. Ele não misturou o vinho da lei com a água da corrupção. Ele não ofereceu um jeitinho político para fugir da lei.

O Senhor não se preocupava com as influências e opinião dos outros e nem julgava pela aparência. Isso quer dizer que nosso Senhor era independente e objetivo. Ele não deixou se manipular pela aparência ou influência das pessoas. O justo age assim. O símbolo da justiça é uma mulher, que está vendada e que tem uma balança na mão. A balança simboliza o julgamento equilibrado. Ela ouve todos os partidos antes de julgar, e para se proteger contra as aparências, que podem influenciar o julgamento dela, ela está vendada. As aparências facilmente influenciam o julgamento dos juízes! Pensem, por exemplo, no The Voice Brasil. Os juízes não podem ver os candidatos que cantam. Eles só devem se basear na voz do candidato, e não na aparência. A aparência é muito importante na nossa sociedade. Facilmente um juiz cai pelo charme de uma mulher bela; facilmente ele escolha o lado de um homem forte e musculoso; ou de um homem rico e poderoso. Jesus não fez isso.

Ele era como os antigos profetas. Os profetas também não se preocupavam com as influências e opiniões dos outros e nem julgavam pelas aparências. Vocês podem verificar isso. Sempre quando um dos reis estava se desviando do caminho do Senhor, apareceu um profeta para dizer a verdade ao rei para que se arrependesse. O rei Saul tinha Samuel como espinho na carne; o rei Davi foi corrigido pelo profeta Natan; O rei Acabe encontrou o profeta Elias no seu caminho. Todos os profetas eram corajosos e objetivos. Eles sabiam que o rei simplesmente poderia dizer: “Cala-se! Joguem o profeta na prisão!”, como aconteceu com o profeta Jeremias ou com João Batista. Eles enfrentaram o rei e não se preocupavam com a influência ou opinião dele; eles o julgavam sem observar a sua aparência. Essa é uma das características do verdadeiro profeta.

A característica do falso profeta é que ele participa da mesa do rei. O rei o alimentava, e dessa maneira controlava a sua língua. Na Holanda existe um ditado que diz: quem domina o estômago de uma pessoa, domina também a sua língua. Aqui eu ia dizer: quem dá ao povo pão e “pinga” [bebida alcoólica], controla a sua língua. Isso é uma sabedoria antiga que sempre funcionava. Os imperadores romanos deram pão e jogos ao povo para que parasse de protestar. Os reis da antiguidade controlaram os profetas, lhes oferecendo pão e pinga. O verdadeiro profeta não aceita esse tipo de controle. Ele é servo de Deus e fala a verdade! O verdadeiro profeta é assim.

Assim agiram também os reformadores no século 16. Algumas semanas atrás nós comemoramos a Reforma da igreja, e no dia 31 de Outubro todo mundo comemorava as coisas que Lutero fez. Lutero era um profeta. Ele não se preocupava com as influências e opinião dos outros e nem julgava pela aparência. Ele leu a Palavra de Deus e essa se tornou a guia da sua vida. Ele descobriu a verdade a respeito da salvação: Não pelas nossas boas obras, mas pela obra de Jesus Cristo na cruz. Só o Cristo, só a Graça, só a Deus a glória! Assim fala a Palavra de Deus.

Essa é a verdade, e Lutero falava e a pregava, e por causa disso ele foi chamado para aparecer perante o papa; Lutero foi, mas não se deixou impressionar pela influência e opinião particular do papa, que estava preocupado com a renda das indulgências e a construção do Vaticano. O papa era um falso profeta; Lutero não lhe obedeceu e continuou e foi chamado para a corte do imperador para ser julgado. Ele foi e deu seu testemunho; abriu as escrituras e falou a verdade perante o rei e os seus conselheiros e perante o tribunal dos bispos que estavam presentes. E no final ele disse: Aqui estou, não posso falar de outra maneira. Lutero não se preocupava com a influência do rei, nem com as opiniões dos bispos, mas falou a verdade, que lhe foi revelada nas escrituras.

Todos os reformadores agiram assim. Eles foram profetas, que enfrentavam os bispos e os governadores por meio das suas confissões. Eles arriscaram as suas vidas e deviam fugir deixando família, bens e prazer. Eles faziam isso cantando o hino de Lutero: De Deus o Verbo ficará, sabemos com certeza. E nada nos perturbará com Cristo por defesa! Se temos de perder: Família, bens, prazer; se tudo se acabar e a morte nos chegar, com Ele reinaremos!

Não somente os reformadores, os líderes, viviam assim, mas também os membros das igrejas reformadas. Eles confessavam a sua fé na liberdade e na prisão. Eles sofreram perseguições e foram torturados. Li uma história de uma mulher na França no século 16. Ela discutia sobre a fé com seus juízes e cantava salmos enquanto estava sendo torturada. Os juízes não aguentavam mais e mandaram cortar a língua para que não pudesse mais cantar. Ela foi levada para a praça da cidade para ser queimada, mas continuou cantando a música dos salmos. Alguém aqui já ouviu um mudo cantar? Pode ser horrível e ninguém entende nada, mas acredito que foram os hinos mais belos e sinceros que Deus tinha ouvido, porque vieram do coração da mulher.

Pensem no Hino 188:

O meu louvor é fruto do teu amor por mim Jesus;

De lábios que confessam o teu nome

É fruto de tua graça e da paz que encontro em ti

E do teu Espírito que habita em mim

Pensem também na segunda estrofe:

Ainda que cadeias venham me prender

Ainda que os homens se levantam contra mim

Meus lábios não se fecharão; pra sempre hei de Te louvar!

Todos os reformados seguem o exemplo de Jesus Cristo e são chamados para ser profetas como Jesus era. Nós devemos ser discípulos de Jesus e seguir o exemplo do mestre. Deve ser uma grande honra quando as pessoas dizem a respeito de você: “Ele (ou ela) é sincero e íntegro e ensina o caminho de Deus conforme a verdade sem se preocupar com as influências e opinião dos outros e nem julga pela aparência”.

Que a suas vidas sejam assim; que as suas línguas falem assim!

Vos sois a luz do mundo! Que a luz de Cristo brilha diante dos homens,

Para que ouçam as vossas boas palavras e glorifiquem o vosso Pai que está nos céus!

Amém!!