CÂNONES DE DORT

CÂNONES DE DORT

Primeiro Capítulo da Doutrina

a eLeiÇÃo e a reProVaÇÃo DiVinaS

ARTIGO 1 Toda a humanidade é condenável diante de Deus

Como todos os homens pecaram em Adão,1 estão debaixo da maldição e merecem a morte eterna. Deus não teria feito injustiça a ninguém se tivesse sido sua vontade deixar toda a raça humana no pecado e debaixo da maldição, e condená-la por causa do seu pecado, de acordo com estas palavras do apóstolo: “para que se cale toda boca, e todo o mundo seja cul- pável perante Deus… pois todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm 3.19,23) e “o salário do pecado é a morte” (Rm 6.23).

1. Rm 5.12; 3.19,23; 6.23.

ARTIGO 2 — O envio do Filho de Deus

Mas nisto se manifestou o amor de Deus:1 em que ele en- viou seu Filho Unigênito ao mundo, “para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16).

1. 1Jo 4.9.

ARTIGO 3 — A pregação do evangelho

Assim, para que os homens sejam conduzidos à fé, Deus misericordiosamente envia arautos dessa mais bem-aventura- da mensagem a quem ele quer e quando quer.1 Pelo ministério desses arautos, os homens são chamados ao arrependimento e à no Cristo crucificado.2 Pois, “Como, porém, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados?” (Rm 10.14,15).

1. Is 52.7. 2.1Co 1.23,24.

ARTIGO 4 — Um duplo resultado

A ira de Deus permanece sobre os que não creem nesse evangelho.1 Mas aqueles que o recebem e abraçam a Jesus, o Salvador, com uma verdadeira e viva, são libertos por ele da ira de Deus e da destruição, e a eles é dada a vida eterna.2

1. Jo 3.36. 2. Mc 16.16; Rm 10.9.

ARTIGO 5 — A causa da incredulidade e a fonte da fé

A causa ou a culpa dessa incredulidade, assim como a de todos os outros pecados, não está de modo nenhum em Deus, e sim no homem.1 No entanto, a em Jesus Cristo e a salvação através dele é o dom gratuito de Deus, como está escrito: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus” (Ef 2.8). Semelhan- temente, “Porque vos foi concedida a graça […] de crerdes nele” (Fp 1.29).

1. Hb 4.6.

ARTIGO 6 — O decreto eterno de Deus

Procede do decreto eterno de Deus conceder, no tempo devido, o dom da a alguns e a outros não.1 Pois ele co- nhece todas as suas obras desde a eternidade2 e “faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade” (Ef 1.11). De acordo com esse decreto, ele graciosamente quebranta o coração dos eleitos, por mais duro que seja, e os inclina a crer; entretanto, segundo o seu justo juízo, ele deixa os que não são eleitos em sua própria malignidade e dureza. E aqui, especialmente, nos é revelada a profunda, misericordiosa e, ao mesmo tempo, justa distinção entre homens igualmente merecedores de condenação, que é o decreto da eleição e da reprovação, revelado na Palavra de Deus. Embora os homens perversos, impuros e instáveis o distorçam para a sua própria destruição, esse mesmo decreto proporciona consolo inexprimível às almas santas e tementes a Deus.

1. At 13.48. 2. 1Pe 2.8.

ARTIGO 7 — Definição da eleição

A eleição é o propósito imutável de Deus pelo qual ele, antes da fundação do mundo,1 dentre toda a raça humana, caída pela própria culpa do estado original de integridade no pecado e na perdição, e segundo o soberano beneplácito da sua vontade e por pura graça, escolheu, em Cristo, para a salvação, um número definido de pessoas específicas, em nada melhores nem mais dignas que as outras, porém envolvidas na mesma miséria das demais.

Ele também, desde a eternidade, constituiu a Cristo como o Mediador e Cabeça de todos os eleitos e o funda- mento da salvação. Assim, decretou dar a Cristo os que haveriam de ser salvos, e chamá-los e trazê-los eficazmente à sua comunhão pela sua Palavra e Espírito.

Ele decretou conceder-lhes a verdadeira em Cristo, justificá-los, santificá-los e, por fim, — depois de tê-los preservado poderosamente na comunhão do seu Filho2 — glorificá-los, para a demonstração da sua misericórdia e o louvor da riqueza da sua graça gloriosa.3 Como está escrito: Deus nos escolheu em Cristo “antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade, para louvor da glória de sua graça, que ele nos concedeu gratuita- mente no Amado (Ef 1.4-6). E em outro lugar: “E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou” (Rm 8.30).4

1. Ef 1.4,11; Jo 17.2. 2. Jo 17.12; 1Co 1.9. 3. Jo 17.24; 6.37,44. 4. Jo 17.2.

ARTIGO 8 — Um único decreto de eleição

Não vários decretos de eleição, mas um único e mesmo decreto para todos os que hão de ser salvos, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. Porque a Escritura declara que o beneplácito, o propósito e o conselho da vontade de Deus é único.1 Segundo esse propósito, ele nos escolheu desde a eternidade tanto para a graça quanto para a glória, como também para a salvação e para o caminho da salvação, o qual preparou para que andássemos nele.2

1. Dt 7.7; 9.6; Ef 1.4,5. 2. Ef 2.10.

ARTIGO 9 — A eleição não se baseia em fé prevista

A eleição não se baseia em fé prevista, obediência da fé, santidade, ou qualquer outra boa qualidade ou disposição que seja a causa ou a condição necessária aos homens para serem eleitos; todavia, os homens são eleitos para a fé, para a obediência da fé, para a santidade, etc.

A eleição, portanto, é a fonte de todas as virtudes sal- vadoras, de onde emanam a fé, a santidade e os outros dons salvíficos e, por fim, a própria vida eterna, como frutos e efeitos da eleição.1 É isso o que o apóstolo ensina quando diz: “assim como nos escolheu nele antes da fundação do mun- do, (não porque fôssemos santos, mas) para sermos santos e irrepreensíveis perante ele” (Ef 1.4).

1. Rm 8.30.

ARTIGO 10 — A eleição baseia-se no beneplácito de Deus

A causa dessa eleição graciosa é tão somente o beneplácito de Deus.1 Esse beneplácito não consiste em Deus ter esco- lhido, dentre todas as condições possíveis, certas qualidades ou ações dos homens como requisito para a salvação; mas consiste em ele ter adotado, dentre a multidão dos pecado- res, certas pessoas para a sua própria possessão. Pois está escrito: “ainda não eram os gêmeos nascidos, nem tinham praticado o bem ou o mal [. ] (Rm 9.11-13) e fora dito a ela [a Rebeca]: O mais velho será servo do mais moço” (Gn 25.23). E também: “todavia, amei a Jacó, porém aborreci a Esaú” (Ml 1.2,3). E ainda: “e creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna” (At 13.48).

1. Ef 1.5.

ARTIGO 11 — A eleição é imutável

Como o próprio Deus é infinitamente sábio, imutável, onisciente e onipotente, assim também a sua eleição não pode ser desfeita, refeita, alterada, revogada, nem anulada; tampouco podem os eleitos ser rejeitados,1 nem o número deles diminuído.2

1. Jo 6.37. 2. Jo 10.28.

ARTIGO 12 — A certeza da eleição

Os eleitos recebem, no tempo oportuno, ainda que em vários graus e diferentes modos, a certeza da sua eterna e imutável eleição para a salvação. Eles, todavia, não a obtêm quando curiosamente investigam as coisas ocultas e profundas de Deus,1 mas quando observam, em si mesmos,2 com alegria espiritual e santo deleite, os infalíveis frutos da eleição in- dicados na Palavra de Deus, tais como a verdadeira em Cristo, o temor filial a Deus, a piedosa tristeza pelos seus pecados,3 e a fome e a sede de justiça.4

1. Dt 29.29; 1Co 2.10,11. 2. 2Co 13.5. 3. 2Co 7.10. 4. Mt 5.6.

ARTIGO 13 — O valor dessa certeza

A consciência e a certeza da eleição proporcionam aos filhos de Deus maior motivo para se humilharem diariamente diante dele,1 para adorarem a profundidade das suas misericórdias, para se purificarem, e para amarem fervorosamente àquele que os amou primeiro de modo tão grandioso.2 Portanto, absolu- tamente, não é verdade que a doutrina da eleição e o meditar nela os façam relaxar na observação dos mandamentos de Deus ou produzam falsa segurança. No justo juízo de Deus, isso normalmente ocorre com aqueles que supõem atrevidamente ter a graça da eleição, ou que falam dela de modo leviano e arrogante, mas se recusam a andar nos caminhos dos eleitos.

1. 1Jo 3.3. 2. 1Jo 4.19.

ARTIGO 14 — Como se deve ensinar a eleição

Segundo o mui sábio conselho de Deus, a doutrina da eleição divina foi pregada pelos profetas, pelo próprio Cristo e pelos apóstolos, tanto no Antigo Testamento quanto no Novo Testamento, e então foi registrada nas Sagradas Escrituras. Por isso, também hoje essa doutrina deve ser ensinada na igreja de Deus,1 para a qual ela foi particularmente destina- da, em tempo e lugar apropriados, com espírito criterioso, de modo reverente e santo, sem curiosa investigação dos caminhos do Altíssimo, para a glória do santíssimo Nome de Deus, e para o vivo consolo do seu povo.2

1. At 20.27; Jó 36.23-26. 2. Rm 11.33; 12.3; 1Co 4.6.

ARTIGO 15 — A descrição da reprovação

As Sagradas Escrituras nos mostram e recomendam essa graça eterna e imerecida da nossa eleição, especialmente quando declaram que nem todos os homens são eleitos, mas que alguns não são eleitos ou foram preteridos na eleição eterna de Deus.1 Deus, pelo seu beneplácito mui soberano, justo, irrepreensível e imutável, decretou deixá-los na miséria comum em que eles se lançaram por sua própria culpa,2 e não lhes concedeu a salvadora nem a graça da conversão. Para mostrar a sua justiça, Deus os deixou em seus próprios caminhos3 e debaixo do seu justo juízo, decretando, por fim, os condenar e punir eternamente, não apenas pela incredulidade deles, mas também por causa de todos os seus outros pecados. Esse é o decreto da reprovação, o qual não faz de Deus o autor do pecado (só em pensar isso é blasfê- mia!), mas, antes, o revela como o terrível, irrepreensível e

justo Juiz e Vingador do pecado.

1. Rm 9.22. 2. 1Pe 2.8. 3. At 14.16.

ARTIGO 16 — Como reagir à doutrina da reprovação

Alguns ainda não discernem claramente em si mesmos uma viva em Cristo,1 nem uma firme confiança no coração, nem boa consciência, nem um zelo pela obediência filial e pela glorificação de Deus por meio de Cristo.2 Apesar disso, eles usam os meios pelos quais Deus prometeu operar tais coisas em nós. Eles não devem se assustar quando a doutrina da reprovação é mencionada nem devem se incluir entre os reprovados. Pelo contrário, devem continuar a usar esses meios com diligência, almejar com fervor um tempo de graça mais abundante, e esperá-lo com reverência e humildade.

também outros que desejam se converter a Deus com seriedade, agradar somente a ele e ser libertos do corpo de morte;3 contudo, não conseguem chegar até onde gos- tariam no caminho da piedade e da fé. Essas pessoas não deveriam ter tanto medo da doutrina da reprovação, pois Deus, que é misericordioso, prometeu que não esmagará a cana quebrada e nem apagará o pavio que fumega.4

ainda outros que desprezam a Deus e ao Senhor Jesus Cristo, e que se entregam completamente aos cuida- dos do mundo e às concupiscências da carne.5 Para esses, a doutrina da reprovação é mesmo apavorante, pois não se voltam para Deus com seriedade.6

1. Tg 2.26. 2. 2Co 1.12; Rm 5.11. 3. Fp 3.3; Rm 7.24. 4. Is 42.3; Mt 12.20. 5. Mt 13.22. 6. Hb 12.29.

ARTIGO 17 — Os fillhos de crentes que morrem na infância

Devemos julgar a respeito da vontade de Deus com base na sua Palavra, que declara que os filhos dos crentes são santos, não por natureza, mas em virtude da aliança da graça, na qual estão incluídos com os seus pais.1 Portanto, pais tementes a Deus não devem duvidar da eleição e da salvação de qualquer de seus filhos, que Deus chama desta vida ainda na infância.2

1. Gn 17.7; Is 59.21. 2. At 2.39; 1Co 7.14.

ARTIGO 18 — Não protesto, mas sim adoração

Aos que se queixam da graça da eleição imerecida e da se- veridade da reprovação justa,1 replicamos com as palavras do apóstolo: “Quem és tu, ó homem, para discutires com Deus?” (Rm 9.20), e com estas palavras do nosso Salvador: “Porventura, não me é lícito fazer o que quero do que é meu?” (Mt 20.15).

Nós, porém, adorando com reverência esses mistérios, exclamamos com o apóstolo: “Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos! Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro? Ou quem primeiro deu a ele para que lhe venha a ser restituído? Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém” (Rm 11.33-36).

1. Jó 40.1-5.

Rejeição de Erros

Depois de haver explicado a verdadeira doutrina da eleição e da reprovação, o Sínodo condena e rejeita os seguintes erros:

Erro 1 A vontade de Deus para salvar aqueles que creriam e perseverariam na e na obediência é o completo e total decreto da eleição para a salvação. Quanto a esse decreto, nada mais que isso foi revelado pela Palavra de Deus.

Refutação Esse erro é um engano e contradiz claramente a Escritura que declara não somente que Deus irá salvar aos que creem, mas também que ele, desde a eternidade, esco- lheu pessoas específicas. No tempo oportuno, ele concede a esses eleitos, em detrimento dos demais homens, tanto a fé em Cristo como a perseverança: “Manifestei o teu nome aos homens que me deste do mundo” (Jo 17.6); “E creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna” (At 13.48); “assim como nos escolheu nele antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele… em amor” (Ef 1.4).

Erro 2 vários tipos de eleição divina para a vida eterna. Uma é geral e indefinida; a outra é específica e definida. Esta última, por sua vez, pode ser: incompleta, revogável, não definitiva e condicional, ou então: completa, irrevogável, definitiva e absoluta. Da mesma maneira, uma eleição para a e outra para a salvação. Assim, a eleição pode ser para a fé justificadora sem, contudo, ser definitiva para a salvação. Refutação Tudo isso é invenção da mente humana e sem nenhuma base na Escritura. A doutrina da eleição é assim corrompida e a corrente de ouro da nossa salvação é que- brada: “E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou” (Rm 8.30).

Erro 3 O beneplácito e o propósito de Deus, que a Escri- tura fala na doutrina da eleição, não significa que ele escolheu especificamente algumas pessoas e outras não, mas que, dentre todas as condições possíveis (inclusive as obras da lei), ele escolheu e selecionou o ato de que não tem nenhum mérito em si mesmo e também a imperfeita obediência da fé, para que fossem condições de salvação.

Em sua graça, ele quis considerar essa como obediência perfeita e digna da recompensa da vida eterna.

Refutação — Esse erro ofensivo priva o beneplácito de Deus e os méritos de Cristo de toda a eficácia, e empurra as pessoas para longe da verdade da justificação pela graça e da simplicidade da Escritura. Isso contradiz as palavras do apóstolo: [Deus] nos salvou e nos chamou com santa vocação; não segundo as nossas obras, mas conforme a Sua própria determinação e graça que nos foi dada em Cristo Jesus, antes dos tempos eternos” (2Tm 1.9).

Erro 4 A eleição para a depende das seguintes condi- ções: o homem deve fazer uso da luz da natureza de modo apropriado, e deve ser piedoso, humilde, manso e qualificado para a vida eterna.

Refutação Se isso fosse verdade, a eleição dependeria do homem. Isso se assemelha ao ensinamento de Pelágio e choca-se diretamente com o ensinamento do apóstolo em Efésios 2.3-9: “entre os quais também todos nós andamos outrora, segundo as inclinações da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos, por natureza, filhos da ira, como também os demais. Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, — pela graça sois salvos, e, juntamente com ele, nos ressuscitou, e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus; para mostrar, nos séculos vindouros, a suprema riqueza da sua graça, em bondade para conosco, em Cristo Jesus. Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie”.

Erro 5 A eleição incompleta e não definitiva de pessoas específicas para a salvação dá-se com base na presciência da fé, da conversão, da santidade, da piedade, que começa- ram ou existiram por algum tempo. A eleição completa e definitiva, no entanto, ocorreu por causa da presciência da perseverança na fé, da conversão, da santidade e da piedade, até o fim. Esse é o mérito gracioso e evangélico pelo qual o eleito é mais digno do que o não eleito. Por isso, a fé, a obediência da fé, a santidade, a piedade e a perseverança não são frutos da imutável eleição para a glória. Antes, são as condições e as causas necessárias requeridas e previstas, como concretizadas naqueles que serão eleitos completamente. Refutação Esse erro milita contra toda a Escritura, que constantemente nos ensina o seguinte: a eleição é motiva- da “não por obras, mas por Aquele que chama” (Rm 9.11); “e creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna” (At 13.48); “assim como nos escolheu nele antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis pe- rante Ele” (Ef 1.4); “Não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vós outros” (Jo 15.16). “se é pela graça, já não é pelas obras; do contrário, a graça já não é graça” (Rm 11.6); “Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados” (lJo 4.10).

Erro 6 Nem toda eleição para a salvação é imutável. Al- guns dos eleitos podem e até mesmo perecem eternamente, a despeito de qualquer decreto de Deus.

Refutação Esse erro grosseiro torna Deus mutável, destrói o consolo que os crentes têm na firmeza da sua eleição, e contradiz as Sagradas Escrituras: o eleito não pode ser des- viado (Mt 24.24); “E a vontade de quem me enviou é esta: que nenhum eu perca de todos os que me deu’’ (Jo 6.39). “E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou” (Rm 8.30).

Erro 7 Nesta vida não fruto, consciência, ou certeza da imutável eleição para a glória, exceto a que se baseia numa condição mutável e incerta.

Refutação Falar de uma certeza incerta não é apenas absurdo, mas é também contrário à experiência dos crentes. Sendo conscientes da sua eleição, eles se gloriam com o apóstolo nesse favor de Deus (Efésios 1); eles se regozijam com os discípulos de Cristo por terem os seus nomes escritos no céu (Lucas 10.20); e eles levantam a consciência de sua eleição contra os dardos inflamados do maligno, quando exclamam: “Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica” (Rm 8.33).

Erro 8 Deus não decidiu, simplesmente com base em sua justa vontade, deixar nenhuma pessoa na queda de Adão e no estado comum de pecado e condenação, nem decidiu preterir ninguém na concessão da graça necessária para a fé e conversão.

Refutação — A Escritura, no entanto, declara: “tem Ele misericórdia de quem quer e também endurece a quem lhe apraz” (Rm 9.18). Afirma também: “a vós outros é dado conhecer os mistérios do reino dos céus, mas àqueles não lhes é isso concedido (Mt 13.11). E ainda: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado” (Mt 11.25,26).

Erro 9 Deus envia o evangelho a um povo e não a outro, não apenas e unicamente por causa do bom propósito de sua vontade, mas porque um povo é melhor e mais digno do que o outro, ao qual o evangelho não é comunicado.

Refutação Moisés nega isso quando fala as seguintes palavras ao povo de Israel: “Eis que os céus e os céus dos céus são do Senhor, teu Deus, a terra e tudo o que nela há. Tão somente o Senhor se afeiçoou a teus pais para os amar; a vós outros, descendentes deles, escolheu de todos os povos, como hoje se vê” (Dt 10.14,15). E Cristo diz: “Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Porque, se em Tiro e em Sidom se tivessem operado os milagres que em vós se fizeram, muito que elas se teriam arrependido com pano de saco e cinza (Mt 11.21).

Segundo Capítulo da Doutrina

a morte De criSto e a reDenÇÃo Do homem atraVÉS DeLa

ARTIGO 1 — O castigo que a justiça de Deus exige

Deus não é apenas supremamente misericordioso, mas tam- bém é supremamente justo. E, conforme ele mesmo revelou em sua Palavra,1 a sua justiça exige que os nossos pecados, cometidos contra a sua infinita majestade, sejam castigados2 não apenas nesta era, mas também na era porvir, tanto no corpo quanto na alma. Não podemos escapar desse castigo, a menos que a justiça de Deus seja satisfeita.

1. Êx 34.6,7. 2. Rm 5.16; Gl 3.10.

ARTIGO 2 — A satisfação cumprida por Cristo

Nós, porém, não podemos cumprir essa satisfação e nos livrar por nós mesmos da ira de Deus. Por isso Deus, em sua infinita misericórdia, nos deu o seu Filho unigênito como o nosso Fiador.1 Por nós ou em nosso lugar, ele foi feito pecado2 e maldito na cruz3 para que pudesse, em nosso favor, satisfazer a Deus.

1. Jo 3.16; Rm 5.8. 2. 2Co 5.21. 3. Gl 3.13.

ARTIGO 3 — O valor infinito da morte de Cristo

A morte do Filho de Deus é o único e o mais perfeito sacri- fício e satisfação pelos pecados,1 de valor e mérito infinitos, e abundantemente suficiente para expiar os pecados do mundo inteiro.2

1. Hb 9.26,28; 10.14. 2. 1Jo 2.2.

ARTIGO 4 — Por que a morte de Cristo tem valor infinito

 A morte do Filho de Deus tem tão grande valor e mérito porque aquele que se submeteu a ela não é apenas o homem perfeito e verdadeiro,1 mas é também o Filho unigênito de Deus,2 da mesma essência eterna e infinita com o Pai e o Espírito Santo, pois tais qualificações eram necessárias para o nosso Salvador. Além disso, essa morte tem tão grande valor e mérito porque foi acompanhada da consciência da ira e da maldição de Deus3 que, por causa dos nossos pecados, somos merecedores.

1. Hb 4.15; 7.26. 2. 1Jo 4.9. 3. Mt 27.46.

ARTIGO 5 A proclamação universal do evangelho

A promessa do evangelho é que todo aquele que crer em Cristo crucificado não perecerá, mas tem a vida eterna.1 Essa promessa deve ser anunciada e proclamada universalmente e sem nenhuma discriminação a todos os povos e homens,2 aos quais Deus, em seu beneplácito, envia o evangelho junta- mente com o mandamento de que se arrependam e creiam.3

1. Jo 3.16. 2. 1Co 1.23; Mt 28.19. 3. At 2.38; 16.31.

ARTIGO 6 — Por que alguns não creem

No entanto, muitos dos que foram chamados pelo evangelho não se arrependem nem creem em Cristo, mas perecem na incredulidade.1 Isso não acontece por haver algum defeito ou insuficiência no sacrifício de Cristo oferecido na cruz, mas pela própria culpa deles.

1. Mt 22.14; Sl 95.11; Hb 4.6.

ARTIGO 7 — Por que outros creem

Mas aqueles que verdadeiramente creem e pela morte de Cristo são libertos e salvos dos seus pecados e da perdição, recebem esse benefício apenas por causa da graça de Deus que lhes é dada em Cristo, desde a eternidade.1 Deus não deve tal graça a ninguém.2

1. 2Co 5.18. 2.Ef 2.8,9.

ARTIGO 8 — A eficácia da morte de Cristo

Este, pois, foi o soberano conselho de Deus, o Pai: que a eficácia salvadora e vivificante da preciosíssima morte do seu Filho se estendesse a todos os eleitos.1 Foi da sua graciosís- sima vontade e intento conceder a justificadora apenas a eles e assim trazer-lhes infalivelmente à salvação.2 Isto é: Deus quis que Cristo, pelo sangue derramado na cruz (pelo qual ele confirmou a nova aliança),3 redimisse, eficazmente, de todo povo, tribo, nação e língua,4 todos aqueles e so- mente aqueles que, desde a eternidade, foram eleitos para a salvação e foram dados ao Filho pelo Pai. Deus também quis que Cristo lhes desse a fé,5 que, juntamente com outros dons salvadores do Espírito Santo, adquiriu para eles pela sua morte, para que pelo seu sangue pudesse purificá-los de todos os seus pecados6 tanto do pecado original quanto dos pecados reais cometidos antes e depois da e para os guardar fielmente até o fim7 e, finalmente, os apresentar a si mesmo em glória, sem nenhuma mácula ou ruga.8

1. Jo 17.9. 2. Ef 5.25-27; Lc 22.20. 3. Hb 8.6. 4. Ap 5.9. 5. Fp 1.2,9. 6. 1Jo 1.7. 7. Jo 10.28. 8. Ef 5.27.

ARTIGO— O cumprimento do conselho de Deus

Esse conselho, que procede do amor eterno de Deus pelos eleitos, tem sido poderosamente cumprido desde a funda- ção do mundo até o momento presente, e ainda continuará a ser cumprido, ainda que as “portas do inferno” tentem, inutilmente, frustrá-lo.1 No devido tempo, os eleitos serão reunidos2 e sempre existirá uma igreja de crentes,3 fundada no sangue de Cristo. Essa igreja deve amá-lo firmemente e servi-lo fielmente como seu Salvador (o qual como Noivo derramou a sua vida na cruz pela sua Noiva)4 e celebrar os seus louvores aqui e por toda a eternidade.

1. Mt 16.18. 2. Jo 11.52. 3. 1Rs 19.18. 4. Ef 5.25.

Rejeição de Erros

Depois de haver explicado a verdadeira doutrina da morte de Cristo e da redenção do homem pela sua morte, o Sínodo condena e rejeita os seguintes erros:

Erro 1 Deus, o Pai, ordenou a morte do seu Filho na cruz sem que houvesse um decreto específico e definitivo para a salvação de ninguém. Aquilo que Cristo adquiriu pela sua morte poderia ser necessário, proveitoso e valioso, e poderia permanecer, em todas as suas partes, completo, perfeito e intacto, mesmo que a redenção adquirida por ele não fosse aplicada a ninguém.

Refutação Tal doutrina ofende a sabedoria de Deus e os méritos de Jesus Cristo e é contrária à Escritura. Pois, o nosso Salvador diz: “dou a minha vida pelas ovelhas eu as conheço” (Jo 10.15,27). E o profeta Isaías, referindo-se ao Salvador, diz: “quando der ele a sua alma como oferta pelo pecado, verá a sua posteridade e prolongará os seus dias; e a vontade do Senhor prosperará nas suas mãos (Is 53.10). Por fim, esse erro contradiz o artigo de que se refere à igreja cristã universal.

Erro 2 O propósito da morte de Cristo não foi que ele confirmasse o novo pacto da graça pelo seu sangue, mas tão somente que adquirisse para o Pai o simples direito de estabelecer, uma vez mais com o homem, uma aliança que lhe agradasse, fosse ela da graça ou das obras.

Refutação Isso milita contra a Escritura que ensina que Cristo se tornou o Fiador e o Mediador de uma superior aliança, isto é, de uma nova aliança; e também que um tes- tamento passa a vigorar com a morte (Hb 7.22; 9.15,17).

Erro 3 Por meio da sua satisfação, Cristo de fato não mereceu, para ninguém, nem a salvação nem a pela qual é possível alguém se apropriar eficazmente dessa satisfação de Cristo para a salvação. Ele conquistou para o Pai apenas a autoridade ou a vontade perfeita de tratar novamente com o homem e de prescrever novas condições conforme a sua vontade. Depende, entretanto, do livre-arbítrio do homem preencher essas condições. Seria possível, portanto, que nenhum ou todos os homens preenchessem tais condições. Refutação — Aqueles que ensinam esse erro desprezam a morte de Cristo, não reconhecem de maneira nenhuma o mais importante fruto ou benefício dela e trazem novamente do inferno o erro Pelagiano.

Erro 4 A nova aliança da graça que Deus, o Pai, fez com o homem, pela mediação da morte de Cristo, não consiste em que somos justificados diante de Deus e salvos pela fé, quando essa aceita o mérito de Cristo. Mas consiste no fato de que Deus revogou a exigência da perfeita obediência à Lei e que considera a própria e a obediência da fé, embora imperfeitas, como a perfeita obediência à Lei. Ele, graciosa- mente, as considera dignas da recompensa da vida eterna. Refutação Essa doutrina contradiz a Escritura: “sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus, a quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé” (Rm 3.24,25). Aqueles que ensinam esse erro proclamam, como fizera o ímpio Socinus, uma nova e estranha justificação do homem diante de Deus, contrária ao consenso de toda a igreja.

Erro 5 Todos os homens foram aceitos no estado de reconciliação e na graça da aliança, de sorte que ninguém está sujeito à condenação nem será condenado por causa do pecado original, pois todos estão livres da culpa do pecado original.

Refutação — Essa opinião conflita com a Escritura que ensina que somos, “por natureza, filhos da ira” (Ef 2.3).

Erro 6 Deus, na verdade, deseja conceder igualmente a todos os homens os benefícios adquiridos pela morte de Cristo. No entanto, alguns obtêm o perdão dos pecados e a vida eterna, e outros não. Essa distinção depende do próprio livre-arbítrio deles, que se associa à graça que é oferecida sem distinção, e não do dom especial de misericórdia que neles opera com tanto poder, a fim de que eles, ao contrário dos outros, apliquem essa graça a si mesmos.

Refutação Aqueles que ensinam isso fazem mau uso da diferença que entre a aquisição e a aplicação da salvação, e confundem a mente dos imprudentes e inexperientes. Em- bora simulem apresentar essa distinção de modo correto, procuram infiltrar na mente das pessoas o veneno pernicioso do Pelagianismo.

Erro 7 Cristo não podia nem precisava morrer, e não morreu por aqueles a quem Deus amou sobremaneira e a quem elegeu para a vida eterna, pois os tais não necessitavam da sua morte.

Refutação Essa doutrina contradiz o apóstolo que declara: O “Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim” (Gl 2.20). Semelhantemente: Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem os condenará? É Cristo Jesus quem morreu” (Rm 8.33,34), isto é, por eles. E o Salvador assim nos assegura: dou a minha vida pelas ovelhas (Jo 10.15). E ainda: “O meu mandamento é este: que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei. Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em favor dos seus amigos” (Jo 15.12,13).

Terceiro e Quarto Capítulos da Doutrina

a corruPÇÃo Do homem, a Sua conVerSÃo a DeuS, e o moDo como iSSo ocorre

ARTIGO 1 — O resultado da queda

No princípio, o homem foi criado à imagem de Deus. Foi adornado em seu entendimento com o verdadeiro e total conhecimento do seu Criador e de todas as coisas espiri- tuais. A sua vontade e o seu coração eram retos; todos os seus sentimentos, puros; o homem era, portanto, comple- tamente santo.1

Mas, ao rebelar-se contra Deus pela instigação do diabo e pelo próprio livre-arbítrio, ele se privou desses dons ex- celentes2 e, em lugar deles, trouxe sobre si cegueira, densas trevas, futilidade e perverso juízo em sua mente; malignidade, rebelião e obstinação em sua vontade e coração; e impureza em todos os seus sentimentos.3

1. Gn 1.26,27. 2. Gn 3.1-7. 3. Ef 4.17-19.

ARTIGO 2 A propagação da corrupção

Depois da queda, o homem se tornou corrompido e, como pai corrompido, gerou filhos corrompidos.1 Assim, de acor- do com o justo juízo de Deus, a corrupção propagou-se de Adão a todos os seus descendentes2 à exceção de Cristo somente3 — não por imitação, como afirmavam os antigos Pelagianos, mas pela propagação de uma natureza pervertida.

1. Jó 14.4; Sl 51.5. 2. Rm 5.12. 3. Hb 4.15.

ARTIGO— A total incapacidade do homem

Portanto, todos os homens são concebidos em pecado e nascem como filhos da ira, incapazes de realizar qualquer bem salvífico, inclinados para o mal, mortos em pecados e escravos do pecado.1 Sem a graça da regeneração do Espírito Santo,2 não desejam nem podem voltar-se para Deus, nem corrigir a sua natureza depravada, nem se preparar para essa correção.

1. Ef 2.1,3; Jo 8.34; Rm 6.16,17. 2. Jo 3.3-6; Tt 3.5.

ARTIGO 4 — A insuficiência da luz da natureza

Com certeza, depois da queda restou no homem um pouco da luz natural, pela qual ele ainda conserva algumas noções sobre Deus,1 sobre as coisas naturais, e sobre a diferença entre o que é honrável e o que é vergonhoso, e mostra alguma consideração pela virtude e pela ordem exterior.2 Mas está tão longe de chegar ao conhecimento salvador de Deus e da verdadeira conversão por meio dessa luz da natureza, que nem mesmo a usa do modo apropriado nas questões naturais e civis. Antes, não importa o que seja essa luz, o homem a polui completamente de várias formas e a suprime pela sua injustiça, tornando-se assim inescusável diante de Deus.3

1. Rm 1.19,20. 2. Rm 2.14,15. 3. Rm 1.18,20.

ARTIGO 5 — A insuficiência da Lei

Aquilo que se afirma da luz da natureza também é válido para os Dez Mandamentos, dados por Deus através de Moisés, particularmente aos Judeus. Embora a Lei revele a grandeza do pecado e cada vez mais convença o homem da sua culpa, ainda assim não lhe aponta a cura nem lhe poder para se erguer e sair das suas misérias. Antes, enfraquecida pela carne, a Lei deixa o transgressor debaixo de maldição. Por essa causa, o homem não pode obter a graça salvadora através da Lei.1

1. Rm 3.19,20; 7.10,13; 8.3; 2Co 3.6,7.

ARTIGO 6 A necessidade do evangelho

Portanto, aquilo que nem a luz da natureza nem a Lei podem fazer, Deus realiza pelo poder do Espírito Santo através da palavra ou ministério da reconciliação,1 que é o evangelho do Messias, pelo qual agradou a Deus salvar aos que creem,2 tanto na antiga quanto na nova dispensação.

1. 2Co 5.18,19. 2. 1Co 1.21.

ARTIGO 7 Por que o evangelho é enviado a uns e não a outros

Na antiga dispensação, Deus revelou esse mistério da sua vontade a poucos. Na nova dispensação, no entanto, ele não considerou os povos de modo diferente e o revelou a um número muito maior de pessoas.1 Não se deve atribuir a causa dessa distribuição do evangelho ao mérito de um povo sobre o outro, nem ao melhor uso da luz da natureza, mas ao beneplácito soberano e ao amor imerecido de Deus.2 Portanto, nós, a quem tão grande graça é concedida, muito além e contrária a tudo o que merecemos, devemos reconhe- cê-la com coração humilde e grato.3 Mas quanto àqueles a quem tal graça não é dada, devemos, com o apóstolo, adorar a severidade e a justiça dos juízos de Deus,4 sem de modo algum investigá-los inquisitiva e curiosamente.5

1. Ef 1.9; 2.14; Cl 3.11. 2. Rm 2.11; Mt 11.26. 3. Rm 11.22,23. 4. Ap 16.7. 5. Dt 29.29.— O chamado sincero do evangelho

Mas todos os que são chamados pelo evangelho, sincera- mente o são,1 pois Deus séria e sinceramente revela em sua Palavra aquilo que lhe agrada, a saber, que todos os que são chamados venham a ele.2 Deus também sinceramente promete o descanso para a alma e a vida eterna a todo o que a ele vier e crer.3

1. Is 55.1; Mt 22.4. 2. Ap 22.17. 3. Jo 6.37; Mt 11.28,29.

ARTIGO 9 Por que alguns dos que são chamados não vêm

Muitos dos que são chamados pelo ministério do evangelho não vêm nem são convertidos. Mas isso não é culpa do evangelho nem do Cristo oferecido pelo evangelho; nem de Deus, que os chama pelo evangelho e até mesmo lhes concede vários dons. A culpa está nos próprios pecadores.1 Alguns deles não se importam com a palavra da vida nem a aceitam. Outros, de fato, a recebem, mas não a aceitam em seu coração e logo retrocedem depois que desaparece a alegria de uma temporária. ainda daqueles que su- focam a semente da Palavra com os espinhos dos cuidados e dos prazeres deste mundo, e não produzem nenhum fruto. Esse é o ensino do nosso Salvador na parábola do semeador.2

1. Mt 11.20-24; 22.1-8; 23.37. 2. Mt 13.

ARTIGO 10 — Por que outros que são chamados vêm

Outros que são chamados pelo ministério do evangelho vêm e são convertidos. Mas, não se deve atribuir isso ao homem, como se ele, por causa do seu livre-arbítrio, fosse superior àqueles que receberam igual ou suficiente graça para a ou conversão (como afirma a arrogante heresia de Pelágio). Deve-se atribuir isso a Deus,1 pois foi ele quem escolheu os seus em Cristo, desde a eternidade, e os chama eficazmente no tempo; concede-lhes a e o arrependimento; livra-os do poder das trevas e os transporta para o reino do seu Filho.2 Tudo isso Deus faz para que eles possam declarar os mara- vilhosos feitos daquele que os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz,3 e para que não se gloriem em si mesmos, mas no Senhor,4 segundo o testemunho dos apóstolos em diversas partes da Escritura.

1. Rm 9.16. 2. Cl 1.13; Gl 1.4. 3. 1Pe 2.9. 4. 1Co 1.31; 2Co 10.17; Ef 2.8,9.

ARTIGO 11 — Como Deus realiza a conversão

Deus realiza o seu beneplácito nos eleitos e opera neles a verdadeira conversão da seguinte maneira: ele cuida para que o evangelho lhes seja pregado e ilumina poderosamen- te a sua mente pelo Espírito Santo, de modo que possam compreender e discernir corretamente as coisas do Espírito de Deus.1 Pela operação eficaz do mesmo Espírito regene- rador, ele também penetra até os recantos mais íntimos do homem;2 abre os corações fechados e abranda os endure- cidos;3 circuncida o que era incircunciso e infunde novas qualidades na vontade;4 faz viver a vontade outrora morta: a que era má, converte em boa; a indisposta, em solícita; a rebelde, em obediente.5 Ele muda e fortalece de tal maneira essa vontade que, assim como uma árvore boa, seja capaz de produzir o fruto das boas obras.6

1. Hb 6.4,5; 1Co 2.10-14. 2. Hb 4.12. 3. At 16.14. 4. Dt 30.6. 5. Ez 11.19; 36.26. 6. Mt 7.18.

ARTIGO 12 — A regeneração é obra de Deus somente

Essa conversão é aquela regeneração, nova criação, ressur- reição dos mortos e vivificação,1 tão exaltada na Escritura, a qual Deus opera em nós independente de nós. Essa re- generação, contudo, não se realiza de modo algum pelo ensino exterior, pela persuasão moral, ou por um suposto modo de operação que, após Deus ter feito a sua parte, fica a critério do homem regenerar-se ou não, converter-se ou não. É, portanto, claramente uma obra sobrenatural, pode- rosíssima, e ao mesmo tempo a mais deleitosa, maravilhosa, misteriosa e indizível. Segundo a Escritura, inspirada pelo Autor dessa obra, a regeneração não é inferior em poder à criação ou à ressurreição dos mortos.2 Por isso, todos aqueles em cujo coração Deus opera desse modo maravilhoso são, com certeza, infalível e eficazmente regenerados e creem de fato.3 A vontade assim restaurada não é apenas alvo da ação e da restauração de Deus, mas, sob o agir de Deus, ela também age. Portanto, diz-se com justiça que o homem crê e se arrepende mediante a graça que recebeu.

1. Jo 3.3; 2Co 4.6; 5.17; Ef 5.14. 2. Jo 5.25; Rm 4.17 3. Fp 2.13.

ARTIGO 13 — A regeneração é incompreensível

Na vida presente, os crentes não podem compreender com- pletamente o modo como Deus realiza essa obra. Contudo, é suficiente para os crentes conhecer e sentir que, por essa graça de Deus, eles creem de coração e amam o seu Salvador.1

1. Jo 3.8; Rm 10.9.

ARTIGO 14 — A fé é um dom de Deus

A fé, portanto, é um dom de Deus,1 não porque meramente seja oferecida por Deus ao livre-arbítrio do homem, mas porque é de fato conferida ao homem, e implantada e in- fundida nele. Também não é um dom no sentido de que Deus confere apenas a capacidade para crer, e aguarda, do livre-arbítrio do homem, o consentimento para crer ou o ato de crer. É, antes, um dom no sentido de que é Deus quem efetua no homem tanto o querer quanto o realizar,2 quem verdadeiramente faz tudo em todos, quem realiza no homem tanto a vontade de crer quanto o ato de crer.

1. Ef 2.8. 2. Fp 2.13.

ARTIGO 15 A atitude correta quanto à graça imerecida de Deus

Deus não deve tal graça a ninguém. O que poderia Deus dever ao homem? Quem primeiro lhe deu alguma coisa, para ser por ele ressarcido?1 O que poderia Deus dever a quem, em si mesmo, nada tem senão pecado e falsidade? Portanto, aquele que recebe essa graça é devedor e deve render eterna- mente gratidão somente a Deus. Mas quem não recebe essa graça não tem o menor interesse por essas coisas espirituais e está satisfeito com o que possui, ou vangloria-se com a falsa segurança de ter o que não tem.2 Além disso, quanto aos que professam externamente a sua e corrigem a sua vida, devemos julgar e falar da forma mais favorável,3 de acordo com o exemplo dos apóstolos, pois não conhecemos o íntimo recôndito do coração; quanto aos que ainda não foram chamados, devemos orar a Deus em favor deles, pois Deus é quem chama à existência as coisas que não existem;4 quanto a nós, não devemos jamais nos vangloriar,5 como se nós fôssemos melhores do que eles.

1. Rm 11.35. 2. Am 6.1; Jr 7.4. 3. Rm 14.10. 4. Rm 4.17. 5. 1Co 4.7.

ARTIGO 16 A vontade do homem não é eliminada, mas é vivificada

Apesar de sua queda, o homem não deixou de ser homem, dotado de inteligência e vontade; e o pecado, que impregnou toda a raça humana, não privou o homem da sua natureza humana, mas trouxe sobre ele a depravação e a morte espi- ritual.1 Assim também, a graça divina da regeneração não atua sobre os homens como se fossem máquinas ou robôs, e não elimina a vontade e as suas propriedades nem a coage violentamente, mas torna-a espiritualmente viva, sara-a, corrige-a e, de modo agradável e ao mesmo tempo poderoso, a subjuga.2 O resultado é que onde antes dominava total- mente a rebelião e a resistência da carne, agora, pelo Espírito, começa a prevalecer uma pronta e sincera obediência, que é a verdadeira renovação e libertação espiritual da nossa vontade. Mas, se o Maravilhoso Autor de todo o bem não tivesse nos conduzido dessa maneira, o homem não teria a menor esperança de erguer-se da sua queda mediante o seu livre-arbítrio, o qual, quando ele ainda estava de pé, o lançou na perdição.

1. Rm 8.2; Ef 2.1. 2. Sl 51.12; Fp 2.13.

ARTIGO 17 — O uso dos meios

A onipotente obra de Deus, pela qual ele produz e sustenta a nossa vida natural, não exclui, mas exige, o uso de meios através dos quais ele quis exercer o seu poder,1 segundo a sua infinita sabedoria e bondade. Assim também, a men- cionada obra sobrenatural de Deus, mediante a qual ele nos regenera,2 não exclui nem cancela, de jeito nenhum, o uso do evangelho que o sapientíssimo Deus ordenou para ser a semente da regeneração e o alimento da alma.3 Por essa razão, os apóstolos e os mestres que os sucederam ensina-ram reverentemente ao povo sobre a graça de Deus, para a glória dele e para a vergonha de toda a soberba. Ao mesmo tempo, não negligenciaram mantê-los por meio das santas admoestações do evangelho, debaixo da administração da Palavra, dos sacramentos e da disciplina.4 Portanto, os que hoje instruem ou são instruídos na igreja não devem ousar tentar a Deus, separando aquilo que ele pelo seu beneplácito quis unir de forma inseparável. Pois a graça é concedida mediante admoestações,5 e quanto mais prontamente cum- prirmos com o nosso dever, tanto mais esse favor de Deus, que é quem opera em nós, manifesta-se naturalmente em sua glória, fazendo a sua obra prosperar da melhor maneira. A Deus somente seja dada a glória eternamente, tanto pelos meios quanto pelos frutos e eficácia da sua salvação.6

Amém.

1. Is 55.10,11; 1Co 1.21. 2. Tg 1.18. 3. 1Pe 1.23,25; 2.2. 4. At 2.42; 2Co 5.11-21; 2Tm 4.2. 5. Rm 10.14-17. 6. Jd 24,25.

Rejeição de Erros

Depois de haver explicado a verdadeira doutrina da corrup- ção do homem e a sua conversão a Deus, o Sínodo rejeita os seguintes erros:

Erro 1 Corretamente falando, não se pode dizer que o pecado original em si mesmo seja suficiente para condenar toda a raça humana ou para merecer castigo temporal e eterno.

Refutação Isso contradiz as palavras do apóstolo quando ele declara: Portanto, assim como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram” (Rm 5.12). E no versículo 16: “o julgamento derivou de uma ofensa, para a condenação”. Também em Romanos 6.23: “o salário do pecado é a morte”.

Erro 2 Os dons espirituais ou as boas qualidades e virtu- des tais como a bondade, a santidade e a justiça não podiam ter feito parte da vontade do homem quando, no princípio, foi criado e, por isso, não podiam ter sido sepa- radas da sua vontade quando ele caiu.

Refutação Esse erro é contrário à descrição da imagem de Deus que o apóstolo em Efésios 4.24, quando ele a associa à justiça e à santidade, as quais pertencem sem a menor dúvida — à vontade.

Erro 3 Na morte espiritual, os dons espirituais não se separam da vontade do homem, porque a vontade, em si, jamais se corrompeu, mas foi apenas prejudicada pela es- curidão da mente e o descontrole das paixões. Se esses obstáculos forem removidos, a vontade poderá exercer toda a sua capacidade inata. Em si mesma, a vontade é capaz de querer e de escolher, ou não, todo tipo de bem que lhe for apresentado.

Refutação Isso é uma inovação e um erro que tende a exaltar a capacidade do livre-arbítrio, contrário àquilo que o profeta Jeremias declara no capítulo 17.9: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto”. Também é contrário ao que o apóstolo Paulo escreveu em Efésios 2.3: “entre os quais (os filhos da ira) também todos nós andamos outrora, segundo as inclinações da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos”.

Erro 4 — O homem não regenerado não está realmente nem completamente morto em pecados, nem privado de toda capacidade para realizar o bem espiritual. Ele ainda é capaz de sentir fome e sede de justiça e de vida, e de ofere- cer o sacrifício de um espírito contrito e quebrantado que agrada a Deus.

Refutação Essas declarações contrariam o claro testemu- nho da Escritura: “Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados” (Ef 2.1,5). E: “era continuamente mau todo desígnio do coração do homem” (Gn 6.5; 8.21). Além disso, somente os regenerados e os bem-aventurados é que têm fome e sede de libertação da miséria e de vida, e oferecem a Deus o sacrifício de um espírito quebrantado (Sl 51.19; Mt 5.6).

Erro 5 O homem corrompido e natural bem pode usar da graça comum (que para os Arminianos é a luz da natureza) ou dos dons ainda remanescentes nele depois da queda, e pode gradualmente conquistar pelo bom uso que faz deles uma graça maior, isto é, a graça evangélica ou salvadora, e até mesmo a própria salvação. Desse modo, Deus, por sua vez, mostra-se pronto a revelar Cristo a todo homem, porque a todos ele administra, suficiente e eficazmente, os meios necessários para que conheçam a Cristo, para e arrependimento.

Refutação Tanto a experiência de todas as eras como tam- bém a Escritura testificam que isso é falso. A Escritura diz:

Mostra a sua palavra a Jacó, as suas leis e os seus preceitos, a Israel. Não fez assim a nenhuma outra nação; todas ignoram os seus preceitos (Sl 147.19,20); e: “o qual, nas gerações pas- sadas, permitiu que todos os povos andassem nos seus próprios caminhos” (At 14.16); e, Paulo e os seus companheiros foram “impedidos pelo Espírito Santo de pregar a palavra na Ásia, defrontando Mísia, tentavam ir para Bitínia, mas o Espírito de Jesus não o permitiu” (At 16.6,7).

Erro 6 Na verdadeira conversão do homem, Deus não pode lhe infundir na vontade nenhuma nova qualidade, capa- cidade ou dom. Portanto, a fé, pela qual somos convertidos a princípio e em razão da qual somos chamados de crentes, não é uma qualidade nem um dom infundido por Deus, mas apenas um ato do homem. Não pode ser chamada de dom, exceto se for quanto à capacidade de se alcançar essa fé.

Refutação Esse ensino contradiz as Sagradas Escrituras que declaram que Deus infunde as novas virtudes da fé, da obediência e da consciência do seu amor em nosso coração:

Na mente, lhes imprimirei as minhas leis, também no cora- ção lhas inscreverei” (Jr 31.33). E: “derramarei água sobre o sedento e torrentes, sobre a terra seca” (Is 44.3). E: “o amor de Deus é derramado em nosso coração pelo Espírito Santo, que nos foi outorgado” (Rm 5.5). Isso também conflita com a prática permanente da igreja, que ora pela boca do profeta: “converte-me, e serei convertido” (Jr 31.18).

Erro 7 A graça pela qual somos convertidos a Deus não passa de um aviso gentil. Esse modo de avisar é o mais nobre modo do homem se converter e está em máxima harmonia com a sua natureza. Não razão para que tal graça per- suasiva não seja suficiente para tornar espiritual o homem natural. Na verdade, Deus não opera o consentimento da vontade, senão mediante essa persuasão moral. O poder da operação divina é superior à operação de Satanás, pois Deus promete bens eternos, e Satanás apenas bens temporais.

Refutação Isso é Pelagianismo puro e, por isso, contrário a toda a Escritura, a qual ensina, além dessa persuasão moral, outro modo mais poderoso e divino da obra do Espírito Santo na conversão do homem: “Dar-vos-ei coração novo e porei dentro de vós espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei coração de carne” (Ez 36.26).

Erro 8 Na regeneração do homem, Deus não faz uso dos poderes da sua onipotência para, de modo forçoso e infalível, submeter a vontade humana à e à conversão. Ainda que todas as obras da graça que Deus emprega para converter o homem sejam realizadas, e ainda que Deus tenha a intenção e a vontade de regenerar o homem, mesmo assim, este ainda poderá resistir a Deus e ao Espírito Santo e, de fato, assim o faz geralmente de modo a impedir completamente a sua regeneração. Portanto, ainda está no poder do homem ser ou não regenerado.

Refutação Isso não é outra coisa senão negar toda a efi- cácia da graça de Deus na nossa conversão, e sujeitar a ação do Deus onipotente à vontade do homem. É contrário aos apóstolos que ensinam “que cremos, segundo a eficácia da força do seu poder” (Ef 1.19), que oram para que o nosso

Deus vos torne dignos da sua vocação e cumpra com poder todo propósito de bondade e obra de fé” (2Ts 1.11), e declaram que pelo seu divino poder, nos têm sido doadas todas as coisas que conduzem à vida e à piedade” (2Pe 1.3).

Erro 9 A graça e o livre-arbítrio são causas parciais que juntas operam o começo da conversão. A graça não vem antes da atuação da vontade, na ordem sequencial dessas causas. Deus não auxilia eficazmente a vontade do homem para que chegue à conversão, até que essa vontade se mo- bilize e determine fazê-lo.

Refutação A igreja antiga muito condenou essa dou- trina dos Pelagianos, conforme as palavras do apóstolo: “Assim, pois, não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia” (Rm 9.16). Também: Pois quem é que te faz sobressair? E que tens tu que não tenhas recebido?” (1Co 4.7). E ainda: porque Deus é quem

148 as três formas de unidade das igrejas reformadas

efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade” (Fp 2.13).

Quinto Capítulo da Doutrina

a PerSeVeranÇa DoS SantoS

ARTIGO 1 Os regenerados não estão livres do pecado interior

Aqueles que, de acordo com o seu propósito, Deus chama à comunhão do seu Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, e regenera pelo seu Espírito Santo, ele certamente os livra do domínio e da escravidão do pecado.1 Mas, nesta vida, ele não os livra totalmente da carne e do corpo do pecado.2

1. Jo 8.34; Rm 6.17. 2. Rm 7.21-24.

ARTIGO 2 Os pecados diários por causa da fraqueza humana

Por causa da fraqueza humana, os santos pecam diariamente e até mesmo suas melhores obras são imperfeitas.1 Para eles, essas coisas são motivos permanentes para se humilharem diante de Deus, para se refugiarem no Cristo crucificado, para mortificarem cada vez mais a carne mediante o Espí- rito de oração e através de santos exercícios de piedade,2 e para ansiarem e se esforçarem pelo alvo da perfeição,3 até que, finalmente, livres deste corpo de morte, reinem com o Cordeiro de Deus no céu.4

1. 1Jo 1.8. 2. Cl 3.5. 3. 1Tm 4.7; Fp 3.12,14. 4. Ap 5.6,10.

ARTIGO 3 — Deus preserva os que são seus

Por causa desses resquícios do pecado que ainda restam no íntimo, e também por causa das tentações do mundo e de Satanás, os convertidos não conseguiriam perseverar nessa graça, caso fossem entregues às suas próprias forças.1 Mas Deus é fiel e os confirma misericordiosamente na graça que, de uma vez por todas, lhes foi outorgada, e os preserva poderosamente nela até o fim.2

1. Rm 7.20. 2. 1Co 10.13; 1Pe 1.5.

ARTIGO 4 Os santos estão sujeitos a cair em pecados graves

Embora o poder de Deus, pelo qual ele confirma e preserva os verdadeiros crentes na graça, seja tão grande que não pode ser vencido pela carne,1 os convertidos, contudo, nem sempre são guiados e dirigidos por Deus, de sorte que não possam, em certas circunstâncias particulares e pela própria culpa deles, se desviar da direção da graça e serem seduzidos pela carne e se rendam à sua concupiscência. Por isso, eles devem orar e vigiar constantemente para que não caiam em tentação.2 Quando não vigiam nem oram,3 eles não somente podem ser levados pela carne, pelo mundo e por Satanás

a cometer sérios e atrozes pecados, mas, algumas vezes, podem ser levados a isso pela justa permissão de Deus. É o que demonstram as lamentáveis quedas de Davi, de Pedro e de outros santos, descritas na Escritura.4

1. Ef 1.19. 2. Mt 26.41. 3. 1Ts 5.6,17. 4. 2Sm 11; Mt 26.

ARTIGO 5 — As consequências desses graves pecados

Os crentes, no entanto, por causa desses graves pecados, ofendem profundamente a Deus, tornam-se culpados de morte, entristecem o Espírito Santo, suspendem o exercício da fé, ferem gravemente a própria consciência e, algumas vezes, perdem o senso do favor de Deus,1 até que voltem ao reto caminho por meio do arrependimento sincero, e o rosto paternal de Deus resplandeça novamente sobre eles.2

1. 2Sm 12; Ef 4.30. 2. Sl 32.3-5; Nm 6.25.

ARTIGO 6 Deus não permitirá que os seus eleitos se percam

Deus, que é rico em misericórdia,1 segundo o seu propósito imutável da eleição,2 não retira completamente o seu Espí- rito Santo dos que lhe pertencem, mesmo diante de suas deploráveis quedas.3 Tampouco permite que se afundem tanto a ponto de caírem da graça da adoção e do estado de justificação,4 ou que cometam o pecado para a morte5 isto é, o pecado contra o Espírito Santo6 e que, totalmente abandonados por ele, se lancem na ruína eterna.

1. Ef 2.4,5. 2. Ef 1.11. 3. Sl 51.13. 4. Gl 4.5. 5. 1Jo 5.16-18.

6. Mt 12.31,32.

ARTIGO 7 Deus renova os seus eleitos para o arre- pendimento

Durante a queda dos eleitos, Deus, primeiramente, preserva neles a semente imperecível de regeneração para que ela não morra e seja lançada fora.1 Além disso, através da sua Palavra e do seu Espírito, ele certa e eficazmente os renova para o arrependimento.2 Como resultado disso, eles sentem o coração contristado com verdadeira tristeza espiritual pelos pecados que cometeram;3 e, com o coração contrito, buscam e obtêm pela o perdão no sangue do Mediador, experimentam novamente o favor de um Deus reconciliado, e adoram as suas misericórdias e fidelidade;4 daí em diante, passam a desenvolver mais diligentemente a própria salvação com temor e tremor.5

1. 1Pe 1.23. 2. 1Jo 3.9. 3. 2Co 7.10. 4. Sl 32.5; 51.19. 5. Fp 2.12.

ARTIGO 8 — A graça do triúno Deus preserva

Não é pelos seus próprios méritos ou força, mas pela ime- recida misericórdia de Deus, que os eleitos não se desviam totalmente da e da graça nem permanecem caídos a ponto de finalmente se perderem. Quanto a eles, isso facilmente poderia acontecer, e aconteceria sem dúvida. Mas quanto a Deus, não a menor possibilidade de que isso aconteça, pois o seu conselho não pode ser mudado;1 a sua promessa não pode falhar; o chamado segundo o seu propósito não pode ser revogado;2 o mérito, a intercessão e a proteção de Cristo não podem ser anulados;3 e o selo do Espírito Santo não pode ser frustrado nem destruído.4

1. Sl 33.11. 2. Hb 6.17; Rm 8.30,34; 9.11. 3. Lc 22.32. 4. Ef 1.13.

ARTIGO 9 — A certeza dessa preservação

Os próprios crentes podem ter a plena certeza da preservação do eleito para a salvação e da perseverança dos verdadeiros crentes na fé.1 E, de fato, cada um deles está convicto disso, segundo a medida da sua fé,2 pela qual creem firmemente que são e que permanecerão membros verdadeiros e vivos da igreja, e que possuem o perdão dos pecados e a vida eterna.3

1. Rm 8.31-39. 2. 2Tm 4.8. 3. 2Tm 4.18.

ARTIGO 10 — A fonte dessa certeza

Tal certeza não é produzida por alguma revelação particular, além ou fora da Palavra, mas pela nas promessas de Deus, que ele revelou abundantemente em sua Palavra para o nosso consolo; pelo testemunho do Espírito Santo, que testifica com o nosso espírito que somos filhos e herdeiros de Deus;1 e, finalmente, pela busca zelosa e santa de uma consciência limpa e de boas obras.2 Se, neste mundo, os eleitos de Deus não tivessem o inabalável consolo da obtenção da vitória3 e da garantia infalível da glória eterna, eles seriam os mais miseráveis de todos os homens.4

1. Rm 8.16-17; 1Jo 3.1,2. 2. At 24.16. 3. Rm 8.37. 4. 1Co

15.19.

ARTIGO 11 — Essa certeza nem sempre é sentida

A Escritura, no entanto, testifica que nesta vida os crentes têm de lutar contra várias dúvidas da carne e, por estarem sujeitos a fortes tentações, nem sempre sentem essa plena segurança da nem a certeza da perseverança. Mas Deus, que é o Pai de toda a consolação,1 não permitirá que sejam tentados além das suas forças, mas com a tentação proverá também o meio de escape e, pelo Espírito Santo, fará res- surgir neles a certeza da perseverança.2

1. 2Co 1.3. 2. 1Co 10.13.

ARTIGO 12 — Essa certeza é um estímulo à piedade

Essa certeza de perseverança, longe de tornar os crentes verdadeiros em orgulhosos e acomodados, é antes a verdadei- ra raiz da humildade, da reverência filial,1 da piedade genuína, da resistência em todo combate, das orações fervorosas, da perseverança no sofrimento e na confissão da verdade, e da duradoura alegria em Deus.2 Além disso, a reflexão sobre esses benefícios é para eles um incentivo à séria e constan- te prática da gratidão e das boas obras,3 como evidencia o testemunho da Escritura e os exemplos dos santos.

1. Rm 12.1. 2. Sl 56.12,13. 3. Sl 116.12; Tt 2.11-14; 1Jo 3.3.

ARTIGO 13 — Essa certeza não leva à negligência

A confiança renovada também não produz a falta de zelo ou negligência da piedade naqueles que foram restaurados, após caírem;1 antes, produz neles um cuidado ainda maior em observar os caminhos do Senhor, que ele preparou de antemão.2 Eles guardam esses caminhos para que, ao andar neles, mantenham a certeza da sua própria perseverança. Então, o rosto do seu Deus gracioso não se afastará deles novamente3 por abusarem da sua bondade paternal, para não caírem em maior angústia espiritual. De fato, para os que temem a Deus a contemplação do seu rosto é mais doce do que a vida, e o privar-se dela é mais amargo do que a morte.4

1. 2Co 7.10. 2. Ef 2.10. 3. Sl 63.4; Is 64.7. 4. Jr 33.5.

ARTIGO 14 O uso dos meios de graça na perseverança Assim como agradou a Deus começar essa obra de graça em nós pela pregação do evangelho, assim ele a mantém, continua e aperfeiçoa em nós pelo ouvir e pela leitura da sua Palavra,1 pela meditação nela, pelas suas exortações, ameaças e promessas,2 e pelo uso dos sacramentos.3

1. Dt 6.20-25. 2. 2Tm 3.16,17. 3. At 2.42.

ARTIGO 15 Essa doutrina é odiada por Satanás, mas é amada pela igreja

Essa doutrina da perseverança dos verdadeiros crentes e santos, assim como a convicção que eles têm dela,1 Deus revelou abundantemente em sua Palavra para a glória do seu nome e consolo dos piedosos. Ele é quem a imprime no coração dos crentes. É algo que a carne não compreende, que Satanás odeia, que o mundo zomba, que os ignorantes e os hipócritas ultrajam, e que os heréticos atacam. A Noiva de Cristo, por outro lado, sempre amou muito ternamente essa doutrina, e sempre a defendeu firmemente como a um tesouro de valor inestimável;2 e Deus, contra quem nenhum plano pode prosperar ou força alguma pode prevalecer,3 cuidará para que a igreja continue a fazer assim. Somente a este Deus Pai, Filho e Espírito Santo seja a honra e a glória para sempre. Amém!4

1. Ap 14.12. 2. Ef 5.32. 3. Sl 33.10,11. 4. 1Pe 5.10,11.

Rejeição de Erros

Depois de haver explicado a verdadeira doutrina da perseverança dos santos, o Sínodo rejeita os seguintes erros:

Erro 1 A perseverança dos verdadeiros crentes não é fruto da eleição nem um dom de Deus obtido pela morte de Cristo, mas é uma condição da nova aliança que o homem, antes da sua (assim chamada) eleição e justificação definitivas, tem a obrigação de cumprir pelo seu livre-arbítrio.

Refutação As Sagradas Escrituras testificam que a perseve- rança decorre da eleição e é concedida ao eleito pela virtude da morte, ressurreição e intercessão de Cristo: mas a eleição o alcançou; e os mais foram endurecidos” (Rm 11.7). E também:

Aquele que não poupou o seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou, porventura, não nos dará graciosamente com ele todas as coisas? Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem os condenará? É Cristo Jesus quem morreu ou, antes, quem ressuscitou, o qual está à direita de Deus e também intercede por nós. Quem nos separará do amor de Cristo?” (Rm 8.32-35).

Erro 2 Deus verdadeiramente supre os crentes de força suficiente para perseverarem e está pronto para preservar tal força neles, se estes cumprirem suas obrigações. Mas mesmo estando prontas todas aquelas coisas que são necessárias à perseverança na e que Deus usará para preservar a fé, ainda assim perseverar ou não sempre depende da decisão do arbítrio do homem.

Refutação Essa ideia é Pelagianismo puro e simples. Embora pretenda tornar os homens livres, tal ideia os torna ladrões da honra de Deus. Ela conflita com o coerente ensi- namento do evangelho, que retira do homem todo motivo de vanglória e atribui todo o mérito desse benefício somente à graça de Deus. Ela é também contrária ao testemunho do apóstolo: é Deus quem “também vos confirmará até ao fim, para serdes irrepreensíveis no Dia de nosso Senhor Jesus Cristo” (1Co 1.8).

Erro 3 — Os crentes verdadeiramente regenerados não apenas podem cair completa e definitivamente da jus- tificadora e também da graça e da salvação, como de fato frequentemente caem e se perdem eternamente.

Refutação Essa opinião anula a graça da justificação, da regeneração, e da contínua preservação por meio de Cristo, e contraria as palavras claras do apóstolo Paulo: Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores. Logo, muito mais agora, sendo justificados pelo seu sangue, seremos por ele salvos da ira (Rm 5.8,9); contraria o apóstolo João: Todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática de pecado; pois o que permanece nele é a divina semente; ora, esse não pode viver pecando, porque é nascido de Deus” (1Jo 3.9); e contraria também as palavras de Jesus Cristo: “Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão. Aquilo que meu Pai me deu é maior do que tudo; e da mão do Pai ninguém pode arrebatar” (Jo 10.28,29).

Erro 4 Crentes verdadeiramente regenerados podem cometer o pecado que leva à morte, isto é, o pecado contra o Espírito Santo.

Refutação Depois de haver falado daqueles que cometem o pecado que leva à morte e de proibir que se ore por eles (1Jo 5.16-17), o mesmo apóstolo João acrescenta imedia- tamente (v. 18): “Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não vive em pecado (isto é, nesse tipo específico de pecado); antes, Aquele que nasceu de Deus o guarda, e o Maligno não lhe toca”.

Erro 5 Sem uma revelação especial, jamais podemos ter nesta vida a certeza da perseverança futura.

Refutação Essa doutrina arranca a segurança consoladora dos verdadeiros crentes nesta vida e introduz novamente na igreja as dúvidas dos seguidores do Papa. As Sagradas Escrituras, no entanto, deduzem sempre essa certeza, não de uma revelação extraordinária e especial, mas das marcas peculiares dos filhos de Deus e das inabaláveis promessas de Deus. Assim, o apóstolo Paulo declara especialmente que nada em toda a criação “poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8.39). E João escreve: “aquele que guarda os seus mandamentos permanece em Deus, e Deus, nele. E nisto conhecemos que Ele permanece em nós, pelo Espírito que nos deu” (1Jo 3.24).

Erro 6 Por sua própria natureza, a doutrina da certeza da perseverança e da salvação causa falsa segurança e é pre- judicial à piedade, à moral, à oração, e a todos os outros santos exercícios. Antes, pelo contrário, é louvável duvidar dessa certeza.

Refutação Esse erro desconhece o poder eficaz da graça de Deus e a operação do Espírito Santo que habita em nós. Também contradiz o apóstolo João, que ensina o oposto disso com estas palavras explícitas: “Amados, agora, somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que haveremos de ser. Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque haveremos de vê-lo como ele é. E a si mesmo se purifica todo o que nele tem esta esperança, assim como ele é puro” (1Jo 3.2,3). Além disso, esse erro é refutado pelo exemplo dos santos, tanto do Antigo quanto do Novo Testamento, que, embora convictos da sua perseverança e salvação, continuaram em oração e em outros exercícios de piedade.

Erro 7 A daqueles que creram apenas por um tempo não difere da justificadora e salvadora, senão quanto à sua duração.

Refutação Em Mateus 13.20-23 e Lucas 8.13-15, o próprio Cristo aponta explicitamente, além dessa duração, uma tripla diferença entre os que creem apenas por um momento e os verdadeiros crentes. Ele declara que os primeiros receberam a semente em solo rochoso, e que os últimos a receberam em solo bom; que os primeiros não possuem raízes, mas que os últimos possuem uma raiz bem firme; que os primeiros não possuem frutos, mas que os últimos os produzem em várias medidas, constante e firmemente.

Erro 8 Não é absurdo que alguém, tendo perdido a sua primeira regeneração, seja novamente, e até frequentemente, nascido de novo.

Refutação Essa doutrina nega que a semente de Deus, pela qual nascemos de novo, seja imperecível, contrariando o testemunho do apóstolo Pedro: “pois fostes regenerados não de semente corruptível, mas de incorruptível” (1Pe 1.23).

Erro 9 Cristo, em nenhum momento, jamais orou para que os crentes perseverassem infalivelmente na fé.

Refutação Isso contradiz o próprio Cristo, que disse: “Eu, porém, roguei por ti (Simão), para que a tua não desfaleça” (Lc 22.32). Também contraria o apóstolo João, que declara que Cristo não orou apenas pelos apóstolos, mas também por todos aqueles que haveriam de crer pela palavra deles: “Pai santo, guarda-os em teu nome”, e: “Não peço que os tires do mundo, e sim que os guardes do mal” (Jo 17.11,15,20).

Conclusão

Esta é a declaração clara, simples e sincera da doutrina orto- doxa quanto aos Cinco Artigos disputados nos Países Baixos; e também é a rejeição dos erros pelos quais as igrejas foram perturbadas, por algum tempo. O Sínodo julga que as pre- sentes declarações e rejeições estão de acordo com a Palavra de Deus e com as Confissões das Igrejas Reformadas. Por isso, torna-se evidente que alguns agiram de modo muito impróprio e contrário a toda a verdade, equidade e amor, querendo convencer o povo a acreditar nos seguintes erros:

  1. Que a doutrina das Igrejas Reformadas no tocante à predestinação e aos demais pontos relacionados a ela, por seu caráter e tendência, desvia o coração dos homens de toda a piedade e religião;

  2. Que ela é um ópio para a carne, ministrado pelo diabo, bem como uma fortaleza para Satanás onde, à espreita de todos, fere multidões e atinge mortalmente a muitos com os dardos do desespero e da falsa segurança;

  3. Que faz de Deus o autor do pecado e um tirano injusto e hipócrita; e que ela não é outra coisa senão um reno- vado Estoicismo, Maniqueísmo, Libertinismo e Islamismo;

  4. Que leva, à negligência espiritual, as pessoas que crerem que nada pode impedir a salvação dos eleitos, não importando como vivam, e que, por isso, eles podem tran- quilamente cometer os crimes mais atrozes. Por outro lado, ela nada pode fazer em favor da salvação dos reprovados, mesmo que eles tivessem realizado todas as obras dos santos;

  5. Que a mesma doutrina ensina que Deus predestinou e criou a maior parte da humanidade para a condenação eterna por um mero ato arbitrário da sua vontade, sem levar em consideração nenhum pecado;

  6. Que da mesma maneira por que a eleição é a fonte e a causa da e das boas obras, a reprovação é a causa da incredulidade e da impiedade;

  7. Que muitos filhos inocentes de pais crentes são ar- rancados do seio da própria mãe e lançados de modo tirânico no inferno, de tal sorte que nem o sangue de Cristo, nem o batismo, nem as orações da igreja no ato do batismo lhes podem servir de qualquer proveito.

E ainda muitos outros ensinamentos desse tipo que as Igrejas Reformadas não apenas não confessam, mas que até mesmo detestam de todo o coração.

Este Sínodo de Dort, portanto, conclama em nome do Senhor a todos quantos piedosamente invocam o nosso Salvador Jesus Cristo, que não julguem a das Igrejas Refor- madas a partir de calúnias levantadas por aí; nem tampouco pelas declarações pessoais de alguns mestres, modernos ou antigos, muitas vezes citados em má-fé, ou tirados do contexto e explicados de modo contrário ao seu verdadeiro sentido. Mas deve-se julgar a das Igrejas Reformadas pelas confissões públicas dessas igrejas e pela presente explicação da doutrina ortodoxa, confirmada pelo consenso unânime e individual dos membros de todo o Sínodo.

Além disso, o Sínodo adverte aos próprios caluniadores que considerem quão severo é o julgamento de Deus desti- nado àqueles que dão falso testemunho contra tantas igrejas e suas confissões, que conturbam a consciência dos fracos e que tentam colocar sob suspeita, aos olhos de muitos, a comunidade dos verdadeiros crentes.

Finalmente, este Sínodo exorta a todos os ministros do evangelho de Cristo a se conduzirem em santo temor e reverência diante de Deus, quando lidarem com essa doutrina em escolas e igrejas. Que, ao ensiná-la, tanto pela palavra falada quanto escrita, devem procurar a glória do nome de Deus, a santidade de vida e a consolação das almas aflitas. Seus pensamentos e palavras sobre a doutrina devem estar em concordância com a Escritura, segundo a analogia da fé. E devem se abster de usar todas aquelas expressões que ultrapassam os limites do verdadeiro sentido das Escrituras Sagradas, para não dar aos frívolos sofistas uma boa opor- tunidade de caluniar ou zombar da doutrina das Igrejas Reformadas.

Que o Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, que está assentado à destra do Pai e concede os seus dons aos ho- mens, nos santifique na verdade; que ele traga à verdade os que dela se desviaram; que silencie os caluniadores da sã doutrina e supra os fiéis ministros da sua Palavra com o Espírito de sabedoria e discernimento, para que tudo aquilo que falarem seja para a glória de Deus e a edificação dos seus ouvintes. Amém!

CÂNONES DE DORT

Primeiro Capítulo da Doutrina

a eLeiÇÃo e a reProVaÇÃo DiVinaS

ARTIGO 1 Toda a humanidade é condenável diante de Deus

Como todos os homens pecaram em Adão,1 estão debaixo da maldição e merecem a morte eterna. Deus não teria feito injustiça a ninguém se tivesse sido sua vontade deixar toda a raça humana no pecado e debaixo da maldição, e condená-la por causa do seu pecado, de acordo com estas palavras do apóstolo: “para que se cale toda boca, e todo o mundo seja cul- pável perante Deus… pois todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm 3.19,23) e “o salário do pecado é a morte” (Rm 6.23).

1. Rm 5.12; 3.19,23; 6.23.

ARTIGO 2 — O envio do Filho de Deus

Mas nisto se manifestou o amor de Deus:1 em que ele en- viou seu Filho Unigênito ao mundo, “para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16).

1. 1Jo 4.9.

ARTIGO 3 — A pregação do evangelho

Assim, para que os homens sejam conduzidos à fé, Deus misericordiosamente envia arautos dessa mais bem-aventura- da mensagem a quem ele quer e quando quer.1 Pelo ministério desses arautos, os homens são chamados ao arrependimento e à no Cristo crucificado.2 Pois, “Como, porém, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados?” (Rm 10.14,15).

1. Is 52.7. 2.1Co 1.23,24.

ARTIGO 4 — Um duplo resultado

A ira de Deus permanece sobre os que não creem nesse evangelho.1 Mas aqueles que o recebem e abraçam a Jesus, o Salvador, com uma verdadeira e viva, são libertos por ele da ira de Deus e da destruição, e a eles é dada a vida eterna.2

1. Jo 3.36. 2. Mc 16.16; Rm 10.9.

ARTIGO 5 — A causa da incredulidade e a fonte da fé

A causa ou a culpa dessa incredulidade, assim como a de todos os outros pecados, não está de modo nenhum em Deus, e sim no homem.1 No entanto, a em Jesus Cristo e a salvação através dele é o dom gratuito de Deus, como está escrito: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus” (Ef 2.8). Semelhan- temente, “Porque vos foi concedida a graça […] de crerdes nele” (Fp 1.29).

1. Hb 4.6.

ARTIGO 6 — O decreto eterno de Deus

Procede do decreto eterno de Deus conceder, no tempo devido, o dom da a alguns e a outros não.1 Pois ele co- nhece todas as suas obras desde a eternidade2 e “faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade” (Ef 1.11). De acordo com esse decreto, ele graciosamente quebranta o coração dos eleitos, por mais duro que seja, e os inclina a crer; entretanto, segundo o seu justo juízo, ele deixa os que não são eleitos em sua própria malignidade e dureza. E aqui, especialmente, nos é revelada a profunda, misericordiosa e, ao mesmo tempo, justa distinção entre homens igualmente merecedores de condenação, que é o decreto da eleição e da reprovação, revelado na Palavra de Deus. Embora os homens perversos, impuros e instáveis o distorçam para a sua própria destruição, esse mesmo decreto proporciona consolo inexprimível às almas santas e tementes a Deus.

1. At 13.48. 2. 1Pe 2.8.

ARTIGO 7 — Definição da eleição

A eleição é o propósito imutável de Deus pelo qual ele, antes da fundação do mundo,1 dentre toda a raça humana, caída pela própria culpa do estado original de integridade no pecado e na perdição, e segundo o soberano beneplácito da sua vontade e por pura graça, escolheu, em Cristo, para a salvação, um número definido de pessoas específicas, em nada melhores nem mais dignas que as outras, porém envolvidas na mesma miséria das demais.

Ele também, desde a eternidade, constituiu a Cristo como o Mediador e Cabeça de todos os eleitos e o funda- mento da salvação. Assim, decretou dar a Cristo os que haveriam de ser salvos, e chamá-los e trazê-los eficazmente à sua comunhão pela sua Palavra e Espírito.

Ele decretou conceder-lhes a verdadeira em Cristo, justificá-los, santificá-los e, por fim, — depois de tê-los preservado poderosamente na comunhão do seu Filho2 — glorificá-los, para a demonstração da sua misericórdia e o louvor da riqueza da sua graça gloriosa.3 Como está escrito: Deus nos escolheu em Cristo “antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade, para louvor da glória de sua graça, que ele nos concedeu gratuita- mente no Amado (Ef 1.4-6). E em outro lugar: “E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou” (Rm 8.30).4

1. Ef 1.4,11; Jo 17.2. 2. Jo 17.12; 1Co 1.9. 3. Jo 17.24; 6.37,44. 4. Jo 17.2.

ARTIGO 8 — Um único decreto de eleição

Não vários decretos de eleição, mas um único e mesmo decreto para todos os que hão de ser salvos, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. Porque a Escritura declara que o beneplácito, o propósito e o conselho da vontade de Deus é único.1 Segundo esse propósito, ele nos escolheu desde a eternidade tanto para a graça quanto para a glória, como também para a salvação e para o caminho da salvação, o qual preparou para que andássemos nele.2

1. Dt 7.7; 9.6; Ef 1.4,5. 2. Ef 2.10.

ARTIGO 9 — A eleição não se baseia em fé prevista

A eleição não se baseia em fé prevista, obediência da fé, santidade, ou qualquer outra boa qualidade ou disposição que seja a causa ou a condição necessária aos homens para serem eleitos; todavia, os homens são eleitos para a fé, para a obediência da fé, para a santidade, etc.

A eleição, portanto, é a fonte de todas as virtudes sal- vadoras, de onde emanam a fé, a santidade e os outros dons salvíficos e, por fim, a própria vida eterna, como frutos e efeitos da eleição.1 É isso o que o apóstolo ensina quando diz: “assim como nos escolheu nele antes da fundação do mun- do, (não porque fôssemos santos, mas) para sermos santos e irrepreensíveis perante ele” (Ef 1.4).

1. Rm 8.30.

ARTIGO 10 — A eleição baseia-se no beneplácito de Deus

A causa dessa eleição graciosa é tão somente o beneplácito de Deus.1 Esse beneplácito não consiste em Deus ter esco- lhido, dentre todas as condições possíveis, certas qualidades ou ações dos homens como requisito para a salvação; mas consiste em ele ter adotado, dentre a multidão dos pecado- res, certas pessoas para a sua própria possessão. Pois está escrito: “ainda não eram os gêmeos nascidos, nem tinham praticado o bem ou o mal [. ] (Rm 9.11-13) e fora dito a ela [a Rebeca]: O mais velho será servo do mais moço” (Gn 25.23). E também: “todavia, amei a Jacó, porém aborreci a Esaú” (Ml 1.2,3). E ainda: “e creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna” (At 13.48).

1. Ef 1.5.

ARTIGO 11 — A eleição é imutável

Como o próprio Deus é infinitamente sábio, imutável, onisciente e onipotente, assim também a sua eleição não pode ser desfeita, refeita, alterada, revogada, nem anulada; tampouco podem os eleitos ser rejeitados,1 nem o número deles diminuído.2

1. Jo 6.37. 2. Jo 10.28.

ARTIGO 12 — A certeza da eleição

Os eleitos recebem, no tempo oportuno, ainda que em vários graus e diferentes modos, a certeza da sua eterna e imutável eleição para a salvação. Eles, todavia, não a obtêm quando curiosamente investigam as coisas ocultas e profundas de Deus,1 mas quando observam, em si mesmos,2 com alegria espiritual e santo deleite, os infalíveis frutos da eleição in- dicados na Palavra de Deus, tais como a verdadeira em Cristo, o temor filial a Deus, a piedosa tristeza pelos seus pecados,3 e a fome e a sede de justiça.4

1. Dt 29.29; 1Co 2.10,11. 2. 2Co 13.5. 3. 2Co 7.10. 4. Mt 5.6.

ARTIGO 13 — O valor dessa certeza

A consciência e a certeza da eleição proporcionam aos filhos de Deus maior motivo para se humilharem diariamente diante dele,1 para adorarem a profundidade das suas misericórdias, para se purificarem, e para amarem fervorosamente àquele que os amou primeiro de modo tão grandioso.2 Portanto, absolu- tamente, não é verdade que a doutrina da eleição e o meditar nela os façam relaxar na observação dos mandamentos de Deus ou produzam falsa segurança. No justo juízo de Deus, isso normalmente ocorre com aqueles que supõem atrevidamente ter a graça da eleição, ou que falam dela de modo leviano e arrogante, mas se recusam a andar nos caminhos dos eleitos.

1. 1Jo 3.3. 2. 1Jo 4.19.

ARTIGO 14 — Como se deve ensinar a eleição

Segundo o mui sábio conselho de Deus, a doutrina da eleição divina foi pregada pelos profetas, pelo próprio Cristo e pelos apóstolos, tanto no Antigo Testamento quanto no Novo Testamento, e então foi registrada nas Sagradas Escrituras. Por isso, também hoje essa doutrina deve ser ensinada na igreja de Deus,1 para a qual ela foi particularmente destina- da, em tempo e lugar apropriados, com espírito criterioso, de modo reverente e santo, sem curiosa investigação dos caminhos do Altíssimo, para a glória do santíssimo Nome de Deus, e para o vivo consolo do seu povo.2

1. At 20.27; Jó 36.23-26. 2. Rm 11.33; 12.3; 1Co 4.6.

ARTIGO 15 — A descrição da reprovação

As Sagradas Escrituras nos mostram e recomendam essa graça eterna e imerecida da nossa eleição, especialmente quando declaram que nem todos os homens são eleitos, mas que alguns não são eleitos ou foram preteridos na eleição eterna de Deus.1 Deus, pelo seu beneplácito mui soberano, justo, irrepreensível e imutável, decretou deixá-los na miséria comum em que eles se lançaram por sua própria culpa,2 e não lhes concedeu a salvadora nem a graça da conversão. Para mostrar a sua justiça, Deus os deixou em seus próprios caminhos3 e debaixo do seu justo juízo, decretando, por fim, os condenar e punir eternamente, não apenas pela incredulidade deles, mas também por causa de todos os seus outros pecados. Esse é o decreto da reprovação, o qual não faz de Deus o autor do pecado (só em pensar isso é blasfê- mia!), mas, antes, o revela como o terrível, irrepreensível e

justo Juiz e Vingador do pecado.

1. Rm 9.22. 2. 1Pe 2.8. 3. At 14.16.

ARTIGO 16 — Como reagir à doutrina da reprovação

Alguns ainda não discernem claramente em si mesmos uma viva em Cristo,1 nem uma firme confiança no coração, nem boa consciência, nem um zelo pela obediência filial e pela glorificação de Deus por meio de Cristo.2 Apesar disso, eles usam os meios pelos quais Deus prometeu operar tais coisas em nós. Eles não devem se assustar quando a doutrina da reprovação é mencionada nem devem se incluir entre os reprovados. Pelo contrário, devem continuar a usar esses meios com diligência, almejar com fervor um tempo de graça mais abundante, e esperá-lo com reverência e humildade.

também outros que desejam se converter a Deus com seriedade, agradar somente a ele e ser libertos do corpo de morte;3 contudo, não conseguem chegar até onde gos- tariam no caminho da piedade e da fé. Essas pessoas não deveriam ter tanto medo da doutrina da reprovação, pois Deus, que é misericordioso, prometeu que não esmagará a cana quebrada e nem apagará o pavio que fumega.4

ainda outros que desprezam a Deus e ao Senhor Jesus Cristo, e que se entregam completamente aos cuida- dos do mundo e às concupiscências da carne.5 Para esses, a doutrina da reprovação é mesmo apavorante, pois não se voltam para Deus com seriedade.6

1. Tg 2.26. 2. 2Co 1.12; Rm 5.11. 3. Fp 3.3; Rm 7.24. 4. Is 42.3; Mt 12.20. 5. Mt 13.22. 6. Hb 12.29.

ARTIGO 17 — Os fillhos de crentes que morrem na infância

Devemos julgar a respeito da vontade de Deus com base na sua Palavra, que declara que os filhos dos crentes são santos, não por natureza, mas em virtude da aliança da graça, na qual estão incluídos com os seus pais.1 Portanto, pais tementes a Deus não devem duvidar da eleição e da salvação de qualquer de seus filhos, que Deus chama desta vida ainda na infância.2

1. Gn 17.7; Is 59.21. 2. At 2.39; 1Co 7.14.

ARTIGO 18 — Não protesto, mas sim adoração

Aos que se queixam da graça da eleição imerecida e da se- veridade da reprovação justa,1 replicamos com as palavras do apóstolo: “Quem és tu, ó homem, para discutires com Deus?” (Rm 9.20), e com estas palavras do nosso Salvador: “Porventura, não me é lícito fazer o que quero do que é meu?” (Mt 20.15).

Nós, porém, adorando com reverência esses mistérios, exclamamos com o apóstolo: “Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos! Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro? Ou quem primeiro deu a ele para que lhe venha a ser restituído? Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém” (Rm 11.33-36).

1. Jó 40.1-5.

Rejeição de Erros

Depois de haver explicado a verdadeira doutrina da eleição e da reprovação, o Sínodo condena e rejeita os seguintes erros:

Erro 1 A vontade de Deus para salvar aqueles que creriam e perseverariam na e na obediência é o completo e total decreto da eleição para a salvação. Quanto a esse decreto, nada mais que isso foi revelado pela Palavra de Deus.

Refutação Esse erro é um engano e contradiz claramente a Escritura que declara não somente que Deus irá salvar aos que creem, mas também que ele, desde a eternidade, esco- lheu pessoas específicas. No tempo oportuno, ele concede a esses eleitos, em detrimento dos demais homens, tanto a fé em Cristo como a perseverança: “Manifestei o teu nome aos homens que me deste do mundo” (Jo 17.6); “E creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna” (At 13.48); “assim como nos escolheu nele antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele… em amor” (Ef 1.4).

Erro 2 vários tipos de eleição divina para a vida eterna. Uma é geral e indefinida; a outra é específica e definida. Esta última, por sua vez, pode ser: incompleta, revogável, não definitiva e condicional, ou então: completa, irrevogável, definitiva e absoluta. Da mesma maneira, uma eleição para a e outra para a salvação. Assim, a eleição pode ser para a fé justificadora sem, contudo, ser definitiva para a salvação. Refutação Tudo isso é invenção da mente humana e sem nenhuma base na Escritura. A doutrina da eleição é assim corrompida e a corrente de ouro da nossa salvação é que- brada: “E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou” (Rm 8.30).

Erro 3 O beneplácito e o propósito de Deus, que a Escri- tura fala na doutrina da eleição, não significa que ele escolheu especificamente algumas pessoas e outras não, mas que, dentre todas as condições possíveis (inclusive as obras da lei), ele escolheu e selecionou o ato de que não tem nenhum mérito em si mesmo e também a imperfeita obediência da fé, para que fossem condições de salvação.

Em sua graça, ele quis considerar essa como obediência perfeita e digna da recompensa da vida eterna.

Refutação — Esse erro ofensivo priva o beneplácito de Deus e os méritos de Cristo de toda a eficácia, e empurra as pessoas para longe da verdade da justificação pela graça e da simplicidade da Escritura. Isso contradiz as palavras do apóstolo: [Deus] nos salvou e nos chamou com santa vocação; não segundo as nossas obras, mas conforme a Sua própria determinação e graça que nos foi dada em Cristo Jesus, antes dos tempos eternos” (2Tm 1.9).

Erro 4 A eleição para a depende das seguintes condi- ções: o homem deve fazer uso da luz da natureza de modo apropriado, e deve ser piedoso, humilde, manso e qualificado para a vida eterna.

Refutação Se isso fosse verdade, a eleição dependeria do homem. Isso se assemelha ao ensinamento de Pelágio e choca-se diretamente com o ensinamento do apóstolo em Efésios 2.3-9: “entre os quais também todos nós andamos outrora, segundo as inclinações da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos, por natureza, filhos da ira, como também os demais. Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, — pela graça sois salvos, e, juntamente com ele, nos ressuscitou, e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus; para mostrar, nos séculos vindouros, a suprema riqueza da sua graça, em bondade para conosco, em Cristo Jesus. Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie”.

Erro 5 A eleição incompleta e não definitiva de pessoas específicas para a salvação dá-se com base na presciência da fé, da conversão, da santidade, da piedade, que começa- ram ou existiram por algum tempo. A eleição completa e definitiva, no entanto, ocorreu por causa da presciência da perseverança na fé, da conversão, da santidade e da piedade, até o fim. Esse é o mérito gracioso e evangélico pelo qual o eleito é mais digno do que o não eleito. Por isso, a fé, a obediência da fé, a santidade, a piedade e a perseverança não são frutos da imutável eleição para a glória. Antes, são as condições e as causas necessárias requeridas e previstas, como concretizadas naqueles que serão eleitos completamente. Refutação Esse erro milita contra toda a Escritura, que constantemente nos ensina o seguinte: a eleição é motiva- da “não por obras, mas por Aquele que chama” (Rm 9.11); “e creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna” (At 13.48); “assim como nos escolheu nele antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis pe- rante Ele” (Ef 1.4); “Não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vós outros” (Jo 15.16). “se é pela graça, já não é pelas obras; do contrário, a graça já não é graça” (Rm 11.6); “Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados” (lJo 4.10).

Erro 6 Nem toda eleição para a salvação é imutável. Al- guns dos eleitos podem e até mesmo perecem eternamente, a despeito de qualquer decreto de Deus.

Refutação Esse erro grosseiro torna Deus mutável, destrói o consolo que os crentes têm na firmeza da sua eleição, e contradiz as Sagradas Escrituras: o eleito não pode ser des- viado (Mt 24.24); “E a vontade de quem me enviou é esta: que nenhum eu perca de todos os que me deu’’ (Jo 6.39). “E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou” (Rm 8.30).

Erro 7 Nesta vida não fruto, consciência, ou certeza da imutável eleição para a glória, exceto a que se baseia numa condição mutável e incerta.

Refutação Falar de uma certeza incerta não é apenas absurdo, mas é também contrário à experiência dos crentes. Sendo conscientes da sua eleição, eles se gloriam com o apóstolo nesse favor de Deus (Efésios 1); eles se regozijam com os discípulos de Cristo por terem os seus nomes escritos no céu (Lucas 10.20); e eles levantam a consciência de sua eleição contra os dardos inflamados do maligno, quando exclamam: “Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica” (Rm 8.33).

Erro 8 Deus não decidiu, simplesmente com base em sua justa vontade, deixar nenhuma pessoa na queda de Adão e no estado comum de pecado e condenação, nem decidiu preterir ninguém na concessão da graça necessária para a fé e conversão.

Refutação — A Escritura, no entanto, declara: “tem Ele misericórdia de quem quer e também endurece a quem lhe apraz” (Rm 9.18). Afirma também: “a vós outros é dado conhecer os mistérios do reino dos céus, mas àqueles não lhes é isso concedido (Mt 13.11). E ainda: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado” (Mt 11.25,26).

Erro 9 Deus envia o evangelho a um povo e não a outro, não apenas e unicamente por causa do bom propósito de sua vontade, mas porque um povo é melhor e mais digno do que o outro, ao qual o evangelho não é comunicado.

Refutação Moisés nega isso quando fala as seguintes palavras ao povo de Israel: “Eis que os céus e os céus dos céus são do Senhor, teu Deus, a terra e tudo o que nela há. Tão somente o Senhor se afeiçoou a teus pais para os amar; a vós outros, descendentes deles, escolheu de todos os povos, como hoje se vê” (Dt 10.14,15). E Cristo diz: “Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Porque, se em Tiro e em Sidom se tivessem operado os milagres que em vós se fizeram, muito que elas se teriam arrependido com pano de saco e cinza (Mt 11.21).

Segundo Capítulo da Doutrina

a morte De criSto e a reDenÇÃo Do homem atraVÉS DeLa

ARTIGO 1 — O castigo que a justiça de Deus exige

Deus não é apenas supremamente misericordioso, mas tam- bém é supremamente justo. E, conforme ele mesmo revelou em sua Palavra,1 a sua justiça exige que os nossos pecados, cometidos contra a sua infinita majestade, sejam castigados2 não apenas nesta era, mas também na era porvir, tanto no corpo quanto na alma. Não podemos escapar desse castigo, a menos que a justiça de Deus seja satisfeita.

1. Êx 34.6,7. 2. Rm 5.16; Gl 3.10.

ARTIGO 2 — A satisfação cumprida por Cristo

Nós, porém, não podemos cumprir essa satisfação e nos livrar por nós mesmos da ira de Deus. Por isso Deus, em sua infinita misericórdia, nos deu o seu Filho unigênito como o nosso Fiador.1 Por nós ou em nosso lugar, ele foi feito pecado2 e maldito na cruz3 para que pudesse, em nosso favor, satisfazer a Deus.

1. Jo 3.16; Rm 5.8. 2. 2Co 5.21. 3. Gl 3.13.

ARTIGO 3 — O valor infinito da morte de Cristo

A morte do Filho de Deus é o único e o mais perfeito sacri- fício e satisfação pelos pecados,1 de valor e mérito infinitos, e abundantemente suficiente para expiar os pecados do mundo inteiro.2

1. Hb 9.26,28; 10.14. 2. 1Jo 2.2.

ARTIGO 4 — Por que a morte de Cristo tem valor infinito

 A morte do Filho de Deus tem tão grande valor e mérito porque aquele que se submeteu a ela não é apenas o homem perfeito e verdadeiro,1 mas é também o Filho unigênito de Deus,2 da mesma essência eterna e infinita com o Pai e o Espírito Santo, pois tais qualificações eram necessárias para o nosso Salvador. Além disso, essa morte tem tão grande valor e mérito porque foi acompanhada da consciência da ira e da maldição de Deus3 que, por causa dos nossos pecados, somos merecedores.

1. Hb 4.15; 7.26. 2. 1Jo 4.9. 3. Mt 27.46.

ARTIGO 5 A proclamação universal do evangelho

A promessa do evangelho é que todo aquele que crer em Cristo crucificado não perecerá, mas tem a vida eterna.1 Essa promessa deve ser anunciada e proclamada universalmente e sem nenhuma discriminação a todos os povos e homens,2 aos quais Deus, em seu beneplácito, envia o evangelho junta- mente com o mandamento de que se arrependam e creiam.3

1. Jo 3.16. 2. 1Co 1.23; Mt 28.19. 3. At 2.38; 16.31.

ARTIGO 6 — Por que alguns não creem

No entanto, muitos dos que foram chamados pelo evangelho não se arrependem nem creem em Cristo, mas perecem na incredulidade.1 Isso não acontece por haver algum defeito ou insuficiência no sacrifício de Cristo oferecido na cruz, mas pela própria culpa deles.

1. Mt 22.14; Sl 95.11; Hb 4.6.

ARTIGO 7 — Por que outros creem

Mas aqueles que verdadeiramente creem e pela morte de Cristo são libertos e salvos dos seus pecados e da perdição, recebem esse benefício apenas por causa da graça de Deus que lhes é dada em Cristo, desde a eternidade.1 Deus não deve tal graça a ninguém.2

1. 2Co 5.18. 2.Ef 2.8,9.

ARTIGO 8 — A eficácia da morte de Cristo

Este, pois, foi o soberano conselho de Deus, o Pai: que a eficácia salvadora e vivificante da preciosíssima morte do seu Filho se estendesse a todos os eleitos.1 Foi da sua graciosís- sima vontade e intento conceder a justificadora apenas a eles e assim trazer-lhes infalivelmente à salvação.2 Isto é: Deus quis que Cristo, pelo sangue derramado na cruz (pelo qual ele confirmou a nova aliança),3 redimisse, eficazmente, de todo povo, tribo, nação e língua,4 todos aqueles e so- mente aqueles que, desde a eternidade, foram eleitos para a salvação e foram dados ao Filho pelo Pai. Deus também quis que Cristo lhes desse a fé,5 que, juntamente com outros dons salvadores do Espírito Santo, adquiriu para eles pela sua morte, para que pelo seu sangue pudesse purificá-los de todos os seus pecados6 tanto do pecado original quanto dos pecados reais cometidos antes e depois da e para os guardar fielmente até o fim7 e, finalmente, os apresentar a si mesmo em glória, sem nenhuma mácula ou ruga.8

1. Jo 17.9. 2. Ef 5.25-27; Lc 22.20. 3. Hb 8.6. 4. Ap 5.9. 5. Fp 1.2,9. 6. 1Jo 1.7. 7. Jo 10.28. 8. Ef 5.27.

ARTIGO— O cumprimento do conselho de Deus

Esse conselho, que procede do amor eterno de Deus pelos eleitos, tem sido poderosamente cumprido desde a funda- ção do mundo até o momento presente, e ainda continuará a ser cumprido, ainda que as “portas do inferno” tentem, inutilmente, frustrá-lo.1 No devido tempo, os eleitos serão reunidos2 e sempre existirá uma igreja de crentes,3 fundada no sangue de Cristo. Essa igreja deve amá-lo firmemente e servi-lo fielmente como seu Salvador (o qual como Noivo derramou a sua vida na cruz pela sua Noiva)4 e celebrar os seus louvores aqui e por toda a eternidade.

1. Mt 16.18. 2. Jo 11.52. 3. 1Rs 19.18. 4. Ef 5.25.

Rejeição de Erros

Depois de haver explicado a verdadeira doutrina da morte de Cristo e da redenção do homem pela sua morte, o Sínodo condena e rejeita os seguintes erros:

Erro 1 Deus, o Pai, ordenou a morte do seu Filho na cruz sem que houvesse um decreto específico e definitivo para a salvação de ninguém. Aquilo que Cristo adquiriu pela sua morte poderia ser necessário, proveitoso e valioso, e poderia permanecer, em todas as suas partes, completo, perfeito e intacto, mesmo que a redenção adquirida por ele não fosse aplicada a ninguém.

Refutação Tal doutrina ofende a sabedoria de Deus e os méritos de Jesus Cristo e é contrária à Escritura. Pois, o nosso Salvador diz: “dou a minha vida pelas ovelhas eu as conheço” (Jo 10.15,27). E o profeta Isaías, referindo-se ao Salvador, diz: “quando der ele a sua alma como oferta pelo pecado, verá a sua posteridade e prolongará os seus dias; e a vontade do Senhor prosperará nas suas mãos (Is 53.10). Por fim, esse erro contradiz o artigo de que se refere à igreja cristã universal.

Erro 2 O propósito da morte de Cristo não foi que ele confirmasse o novo pacto da graça pelo seu sangue, mas tão somente que adquirisse para o Pai o simples direito de estabelecer, uma vez mais com o homem, uma aliança que lhe agradasse, fosse ela da graça ou das obras.

Refutação Isso milita contra a Escritura que ensina que Cristo se tornou o Fiador e o Mediador de uma superior aliança, isto é, de uma nova aliança; e também que um tes- tamento passa a vigorar com a morte (Hb 7.22; 9.15,17).

Erro 3 Por meio da sua satisfação, Cristo de fato não mereceu, para ninguém, nem a salvação nem a pela qual é possível alguém se apropriar eficazmente dessa satisfação de Cristo para a salvação. Ele conquistou para o Pai apenas a autoridade ou a vontade perfeita de tratar novamente com o homem e de prescrever novas condições conforme a sua vontade. Depende, entretanto, do livre-arbítrio do homem preencher essas condições. Seria possível, portanto, que nenhum ou todos os homens preenchessem tais condições. Refutação — Aqueles que ensinam esse erro desprezam a morte de Cristo, não reconhecem de maneira nenhuma o mais importante fruto ou benefício dela e trazem novamente do inferno o erro Pelagiano.

Erro 4 A nova aliança da graça que Deus, o Pai, fez com o homem, pela mediação da morte de Cristo, não consiste em que somos justificados diante de Deus e salvos pela fé, quando essa aceita o mérito de Cristo. Mas consiste no fato de que Deus revogou a exigência da perfeita obediência à Lei e que considera a própria e a obediência da fé, embora imperfeitas, como a perfeita obediência à Lei. Ele, graciosa- mente, as considera dignas da recompensa da vida eterna. Refutação Essa doutrina contradiz a Escritura: “sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus, a quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé” (Rm 3.24,25). Aqueles que ensinam esse erro proclamam, como fizera o ímpio Socinus, uma nova e estranha justificação do homem diante de Deus, contrária ao consenso de toda a igreja.

Erro 5 Todos os homens foram aceitos no estado de reconciliação e na graça da aliança, de sorte que ninguém está sujeito à condenação nem será condenado por causa do pecado original, pois todos estão livres da culpa do pecado original.

Refutação — Essa opinião conflita com a Escritura que ensina que somos, “por natureza, filhos da ira” (Ef 2.3).

Erro 6 Deus, na verdade, deseja conceder igualmente a todos os homens os benefícios adquiridos pela morte de Cristo. No entanto, alguns obtêm o perdão dos pecados e a vida eterna, e outros não. Essa distinção depende do próprio livre-arbítrio deles, que se associa à graça que é oferecida sem distinção, e não do dom especial de misericórdia que neles opera com tanto poder, a fim de que eles, ao contrário dos outros, apliquem essa graça a si mesmos.

Refutação Aqueles que ensinam isso fazem mau uso da diferença que entre a aquisição e a aplicação da salvação, e confundem a mente dos imprudentes e inexperientes. Em- bora simulem apresentar essa distinção de modo correto, procuram infiltrar na mente das pessoas o veneno pernicioso do Pelagianismo.

Erro 7 Cristo não podia nem precisava morrer, e não morreu por aqueles a quem Deus amou sobremaneira e a quem elegeu para a vida eterna, pois os tais não necessitavam da sua morte.

Refutação Essa doutrina contradiz o apóstolo que declara: O “Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim” (Gl 2.20). Semelhantemente: Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem os condenará? É Cristo Jesus quem morreu” (Rm 8.33,34), isto é, por eles. E o Salvador assim nos assegura: dou a minha vida pelas ovelhas (Jo 10.15). E ainda: “O meu mandamento é este: que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei. Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em favor dos seus amigos” (Jo 15.12,13).

Terceiro e Quarto Capítulos da Doutrina

a corruPÇÃo Do homem, a Sua conVerSÃo a DeuS, e o moDo como iSSo ocorre

ARTIGO 1 — O resultado da queda

No princípio, o homem foi criado à imagem de Deus. Foi adornado em seu entendimento com o verdadeiro e total conhecimento do seu Criador e de todas as coisas espiri- tuais. A sua vontade e o seu coração eram retos; todos os seus sentimentos, puros; o homem era, portanto, comple- tamente santo.1

Mas, ao rebelar-se contra Deus pela instigação do diabo e pelo próprio livre-arbítrio, ele se privou desses dons ex- celentes2 e, em lugar deles, trouxe sobre si cegueira, densas trevas, futilidade e perverso juízo em sua mente; malignidade, rebelião e obstinação em sua vontade e coração; e impureza em todos os seus sentimentos.3

1. Gn 1.26,27. 2. Gn 3.1-7. 3. Ef 4.17-19.

ARTIGO 2 A propagação da corrupção

Depois da queda, o homem se tornou corrompido e, como pai corrompido, gerou filhos corrompidos.1 Assim, de acor- do com o justo juízo de Deus, a corrupção propagou-se de Adão a todos os seus descendentes2 à exceção de Cristo somente3 — não por imitação, como afirmavam os antigos Pelagianos, mas pela propagação de uma natureza pervertida.

1. Jó 14.4; Sl 51.5. 2. Rm 5.12. 3. Hb 4.15.

ARTIGO— A total incapacidade do homem

Portanto, todos os homens são concebidos em pecado e nascem como filhos da ira, incapazes de realizar qualquer bem salvífico, inclinados para o mal, mortos em pecados e escravos do pecado.1 Sem a graça da regeneração do Espírito Santo,2 não desejam nem podem voltar-se para Deus, nem corrigir a sua natureza depravada, nem se preparar para essa correção.

1. Ef 2.1,3; Jo 8.34; Rm 6.16,17. 2. Jo 3.3-6; Tt 3.5.

ARTIGO 4 — A insuficiência da luz da natureza

Com certeza, depois da queda restou no homem um pouco da luz natural, pela qual ele ainda conserva algumas noções sobre Deus,1 sobre as coisas naturais, e sobre a diferença entre o que é honrável e o que é vergonhoso, e mostra alguma consideração pela virtude e pela ordem exterior.2 Mas está tão longe de chegar ao conhecimento salvador de Deus e da verdadeira conversão por meio dessa luz da natureza, que nem mesmo a usa do modo apropriado nas questões naturais e civis. Antes, não importa o que seja essa luz, o homem a polui completamente de várias formas e a suprime pela sua injustiça, tornando-se assim inescusável diante de Deus.3

1. Rm 1.19,20. 2. Rm 2.14,15. 3. Rm 1.18,20.

ARTIGO 5 — A insuficiência da Lei

Aquilo que se afirma da luz da natureza também é válido para os Dez Mandamentos, dados por Deus através de Moisés, particularmente aos Judeus. Embora a Lei revele a grandeza do pecado e cada vez mais convença o homem da sua culpa, ainda assim não lhe aponta a cura nem lhe poder para se erguer e sair das suas misérias. Antes, enfraquecida pela carne, a Lei deixa o transgressor debaixo de maldição. Por essa causa, o homem não pode obter a graça salvadora através da Lei.1

1. Rm 3.19,20; 7.10,13; 8.3; 2Co 3.6,7.

ARTIGO 6 A necessidade do evangelho

Portanto, aquilo que nem a luz da natureza nem a Lei podem fazer, Deus realiza pelo poder do Espírito Santo através da palavra ou ministério da reconciliação,1 que é o evangelho do Messias, pelo qual agradou a Deus salvar aos que creem,2 tanto na antiga quanto na nova dispensação.

1. 2Co 5.18,19. 2. 1Co 1.21.

ARTIGO 7 Por que o evangelho é enviado a uns e não a outros

Na antiga dispensação, Deus revelou esse mistério da sua vontade a poucos. Na nova dispensação, no entanto, ele não considerou os povos de modo diferente e o